A arte de perder não tarda a aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
e a perda que o perdê-las não traz desastre.
Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
Se a arte de perder não tarda aprender.
Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde passaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarde a aprender, a arte de perder.
Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta. Nenhum desastre.
– Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente;
A arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – Escreva isso! – lembre desastre.
Elizabeth Bishop (Worcester, Massachusetts, Estados Unidos, 8 de fevereiro de 1911 – 6 de outubro de 1979)