Rubrica:
Esta cantiga de cima foi feita a um Meestre d’ordim de cavalaria, porque havia sa barragãã e fazia seus [filhos] em ela ante que fosse Meestre; e depois havia ũa tenda em Lisboa, em que tragia mui grande haver a gaanho; e aquela sa barregãã, quando lhi algũus dinheiros vinham da terra da Ordem e que Meestre i nom era, enviava-os aaquela tenda, pera gaanharem com eles pera seus filhos; e depois tirarom ende os dinheiros da tenda e derom-nos em outras praças pera gaanharem com eles, e ficou a tenda desfeita; e nom leixou por en o Meestre depois a [barre]gãã.
Um cavaleiro havia
ũa tenda mui fremosa
que, cada que nela siia,
assaz lh’era saborosa;
e um dia, pela sesta,
u estava bem armada
de cada part’, espeçada
foi toda pela Meestra.
Na tenda nom ficou pano
nem cordas nem guarnimento
que toda nom foss’a dano,
pelo apoderamento
da Maestra, que, tirando
foi tanto pelo esteo,
que por esto, com’eu creo,
se foi toda [e]speçando.
A corda foi em pedaços
e o mais do al perdudo;
mais ficarom-lhi dous maços
[a] par do esteo merjudo,
e a Maestra metuda
na grand’estaca, jazendo;
e foi-s’a tenda perdendo
assi como é perduda.
Per míngua de bom meestre
pereceo tod’a tenda;
que nunca se dela preste
pera dom nem pera venda,
ca leixou, com mal recado,
a Meestra tirar tanto
da tenda, que, já enquanto
viva, seerá posfaçado.
Pedro de Barcelos, pseudônimo de Conde Pedro Afonso de Barcelos (1287 – Lalim, Portugal, entre 2 de fevereiro e 5 de julho, 1354). Cantiga de escárnio e maldizer