Virá um e outro abril,
E envolto em flores — dirá :
Já a terra tem verdores,
E as aves cantam amores.
Vamos, vem, desperta…
Já
Vem chegando as andorinhas.
O que é, diz, que as chama cá ?
Senão os mimos do sol,
Que lhes afagam a prole.
Vamos, vem, desperta…
Já
Estremece e abrolha a arvore,
Que mil fructos te dará.
Sorrí toda a natureza,
A fera perde a braveza,
Vamos, vem, desperta…
Já
Das estações a mais doce,
Que outra mais doce não ha,
Traz aos seres vida nova,
Tudo nos campos renova,
Vamos, vem, desperta…
Já
Folga o pobre de contente,
Que a festa vigor lhe dá.
É universal a festa.
No mundo nada te resta ?
Vamos, vem, desperta…
Já
— Detem-te ; perdi a amante.
Sim — nada me resta já !
A festa, o mundo—que importa !
Para mim, depois que é morta,
Já Primaveras não ha.
A. X. Rodrigues Cordeiro, pseudônimo de António Xavier Rodrigues Cordeiro (Cortes, Portugal, 28 de dezembro de 1819 — Lisboa, Portugal, 11 de dezembro de 1896)