A dobadoira

Estava à porta assentada,
dobando a sua meada
        A velhinha:
Lenço branco na cabeça
A madeixa lhe sustinha,
E envolve-a a como toalha;
Com que préssa
Sentada à porta trabalha.

         O sol doira
         Seu cabelo,
Que tem a cor da geada;
Para passar o novelo,
         A velhinha
De vez em quando sustinha
A gemente dobadoira;
Em que anda branca meada.

Na dobadoira que gira,
Como a mente que delira,
Nem já toda a atenção pondo;
Nem no novelo redondo
        Aumentando
Ao passo que o fio tira,
Todo o seu cuidado emprega!
       Pobre e cega,
Ansiada, de quando em quando
Com que tristeza suspira!

Por vezes o movimento
        Claro exprime
Tumultuar do pensamento,
Que no imo da alma a oprime
    E quase oura!
Muita angústia e paciência
Reflecte-a a intermitência
   Do andamento
Ao voltear da dobadoira.

Fica-lhe na mão suspensa
          O novelo,
Concentrada não o enleia;
Na orfã netinha pensa!…
      Vem-lhe à ideia
        Por sua morte:
“Só, no mundo! Entregue à sorte!
        Pobre neta…
         Pesadelo,
Que tanto a velhinha inquieta.

Não ouvindo a dobadoira,
Que gemia intermitente,
Caindo da mão dormente
         O novelo…
         Com desvelo,
A neta, cabeça loira,
          Vem à porta
Ver o que foi; com susto olha:
Uma lágrima inda molha
A face à velhinha morta.

Teófilo Braga (Ponta Delgada, , Açores, Reino de Portugal, 24 de fevereiro de 1843 – Lisboa, Portugal, 28 de janeiro de 1924). In “Viriato”

Nota: Dobadoira – Aparelho para dobar.
Dobar – Enovelar ou enrolar em novelo.
No dicionário da Língua Portuguesa de Fernando J. da Silva.

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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