Estava à porta assentada,
dobando a sua meada
A velhinha:
Lenço branco na cabeça
A madeixa lhe sustinha,
E envolve-a a como toalha;
Com que préssa
Sentada à porta trabalha.
O sol doira
Seu cabelo,
Que tem a cor da geada;
Para passar o novelo,
A velhinha
De vez em quando sustinha
A gemente dobadoira;
Em que anda branca meada.
Na dobadoira que gira,
Como a mente que delira,
Nem já toda a atenção pondo;
Nem no novelo redondo
Aumentando
Ao passo que o fio tira,
Todo o seu cuidado emprega!
Pobre e cega,
Ansiada, de quando em quando
Com que tristeza suspira!
Por vezes o movimento
Claro exprime
Tumultuar do pensamento,
Que no imo da alma a oprime
E quase oura!
Muita angústia e paciência
Reflecte-a a intermitência
Do andamento
Ao voltear da dobadoira.
Fica-lhe na mão suspensa
O novelo,
Concentrada não o enleia;
Na orfã netinha pensa!…
Vem-lhe à ideia
Por sua morte:
“Só, no mundo! Entregue à sorte!
Pobre neta…
Pesadelo,
Que tanto a velhinha inquieta.
Não ouvindo a dobadoira,
Que gemia intermitente,
Caindo da mão dormente
O novelo…
Com desvelo,
A neta, cabeça loira,
Vem à porta
Ver o que foi; com susto olha:
Uma lágrima inda molha
A face à velhinha morta.
Teófilo Braga (Ponta Delgada, , Açores, Reino de Portugal, 24 de fevereiro de 1843 – Lisboa, Portugal, 28 de janeiro de 1924). In “Viriato”
Nota: Dobadoira – Aparelho para dobar.
Dobar – Enovelar ou enrolar em novelo.
No dicionário da Língua Portuguesa de Fernando J. da Silva.