mas, de tantas solidões da arte,
como escrever sobre uma, não a partir dela,
cabeça de rapariga, um perugino
sobre papel cinzento?
como falar de retratos, da sua reverberação anímica,
daqueles que precisam da quase obscuridade,
luz velada que os preserve? sua mina, de chumbo,
crayon branco, papel de desbotar?
como falar de sua neutral beleza, seus ovais sugeridos
ou delindo-se? como das metamorfoses, do tempo,
de antónio quarateni
que miguel ângelo desenhou, captando-lhe
na juventude oblíqua, o seu olhar ambíguo, feminino,
cerca de 1530? ou de um
dos quatro desenhos de filippino lippi
e de raffaellino
do libro de’ disegni? como captar
em palavras escassas, com hipálages graves, seu aquele
interior sossego de modelo ̶ nada a ver
com a indiferença mas a pura
transfiguração do lápis? ou como, se quiserdes,
transpor o vício quase entreaberto
de um burne-jones no estudo
para uma das graças de vénus manlia,
o seu olhar velando
promessas indiferentes?
ou ainda uma
mulher deitada de klimt,
de bruços, sua ausência
sensual de olhar em arabesco? ou aquela
cabeça de rapaz, de lupi,
hoje na capa de um livro, o meio sorriso
que ignora a morte e a tem presente?
questões, questões,
inodoras, sem música, mentais melancolias indizíveis,
que têm a ver com uma verdade da arte
ou com a sua mentira (a mais grave da nossa condição),
no mais fundo de aceitarmos uma ou outra, o
simulacro de um conhecimento, de tantas nossas
inquietações, esperanças; tempos outros? morte?
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Vasco Graça Moura (Porto, Foz do Douro, Foz do Douro, Portugal, 3 de janeiro de 1942 – Lisboa, Foz do Douro, Portugal, 27 de abril de 2014). Curadoria de Luís Araujo Pereira