os rostos comunicantes

mas, de tantas solidões da arte,
como escrever sobre uma, não a partir dela,
cabeça de rapariga, um perugino
sobre papel cinzento?

como falar de retratos, da sua reverberação anímica,
daqueles que precisam da quase obscuridade,
luz velada que os preserve? sua mina, de chumbo,
crayon branco, papel de desbotar?

como falar de sua neutral beleza, seus ovais sugeridos
ou delindo-se? como das metamorfoses, do tempo,
de antónio quarateni
que miguel ângelo desenhou, captando-lhe

na juventude oblíqua, o seu olhar ambíguo, feminino,
cerca de 1530? ou de um
dos quatro desenhos de filippino lippi
e de raffaellino

do libro de’ disegni? como captar
em palavras escassas, com hipálages graves, seu aquele
interior sossego de modelo  ̶  nada a ver
com a indiferença mas a pura

transfiguração do lápis? ou como, se quiserdes,
transpor o vício quase entreaberto
de um burne-jones no estudo
para uma das graças de vénus manlia,

o seu olhar velando
promessas indiferentes?
ou ainda uma
mulher deitada de klimt,
de bruços, sua ausência
sensual de olhar em arabesco? ou aquela
cabeça de rapaz, de lupi,
hoje na capa de um livro, o meio sorriso

que ignora a morte e a tem presente?
questões, questões,
inodoras, sem música, mentais melancolias indizíveis,
que têm a ver com uma verdade da arte

ou com a sua mentira (a mais grave da nossa condição),
no mais fundo de aceitarmos uma ou outra, o
simulacro de um conhecimento, de tantas nossas
inquietações, esperanças; tempos outros? morte?

• • •

Vasco Graça Moura (Porto, Foz do Douro, Foz do Douro, Portugal, 3 de janeiro de 1942 – Lisboa, Foz do Douro, Portugal, 27 de abril de 2014). Curadoria de Luís Araujo Pereira

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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