O engenheiro

A Antônio B. Baltar

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).

A água, o vento, a claridade
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “O engenheiro”, 1945

Nota: A expressão “machine à émouvoir”, que significa “máquina de comover”, foi usada por João Cabral de Melo Neto, especialmente na epígrafe de “O engenheiro” (1945), para descrever a sua visão da poesia como uma construção técnica e racional destinada a provocar emoção. A poesia cabralina, com o seu rigor formal e a sua linguagem concisa, funcionaria como uma máquina, onde cada elemento, tal como numa engrenagem, teria uma função específica na criação do impacto emocional desejado no leitor. Influência da arquitetura: Cabral, também conhecido como “poeta engenheiro”, via a criação poética como um ofício técnico e laborioso. A sua poesia não era um impulso inspiracional, mas um trabalho árduo sobre a estrutura da linguagem, tal como a construção de um edifício.

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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