Aécio Júnior: Artista naïf

“Aécio: Inquietação constante

Há artistas plásticos que passam pelo mundo e deixam quadros inesquecíveis; outros colecionam lembranças que os tornam depósitos vivos da cultura nacional e nem sempre são aproveitados, muitas vezes partindo sem registrar essas lembranças. Poucos conseguem conciliar trabalhos de qualidade com muita história para contar.

Aécio de Andrade, que assina seus quadros como Aecio, reúne essas duas qualidades. Em primeiro lugar, desenvolve, desde seus quadros iniciais, uma obra coerente, inclusive com transformações no estilo de pintar e na forma de apresentar as suas figuras.

Além disso, ele tem uma trajetória marcada pelo convívio e conhecimento com artistas de primeira linha. A soma entre seu próprio trabalho e a visão que adquiriu da arte ao longo do tempo lhe permitiu aperfeiçoar um olho clínico que merecia ser mais valorizado para avaliar a produção contemporânea do gênero chamado naïf.

Nascido em São Paulo, em 1935, filho de decorador, ele sempre pensou em ser artista plástico. Como não tinha formação escolar que lhe permitisse freqüentar o ensino superior, embora pintasse desde os 14 anos, foi na Associação Paulista de Belas Artes que buscou não só informações técnicas, pois sequer sabia que ele era um autodidata, mas um local onde pudesse conhecer e conversar com artistas.

Na Associação, teve contato com pessoas como Mario Zanini e Flavio de Carvalho. Do primeiro, ouviu pela primeira vez que era um primitivista, ou seja, um artista que havia trilhado sozinho a sua relação com a técnica e que precisava seguir essa jornada que começara a desvendar. No segundo, encontrou um artista visceral, que amava o desenho.

Com cenas de carnaval, do pelourinho, na Bahia, e de colheitas, inspiradas no período em que morou no interior, próximo a Araraquara, interior do Estado de São Paulo, foi elaborando a sua carreira, embora a primeira avaliação profissional que tenha recebido de sua obra foi a do crítico de arte Jos Luyten, que, em função dos quadros que fazia sobre cenas urbanas, com trabalhadores, o chamou de o “pintor do cotidiano paulista”.

É na composição de cores que está a sua mais destacada característica. Suas obras geralmente se valem de áreas cromáticas para estabelecer um mecanismo dinâmico que torna as suas telas um rico exercício para o olhar no desvendar as linhas de força que cada obra apresenta.

Suas telas mais recentes voltam-se para pássaros fantásticos num cenário amazônico. Essas aves estão repletas de movimentos e de curvas, constituindo ondas que preenchem o espaço e encantam pelas suas cores. Quanto mais exploradas forem, podem trazer novos elementos para o artista desenvolver o seu talento.

Aécio precisa dar vazão a seu impulso criativo. Isso lhe permite estar sempre pronto a surpreender, apresentando obras em que o pássaro da imaginação e da liberdade ganhe cada vez asas mais fortes e amplas, que permitam ao artista sempre ter em mente a possibilidade de enfrentar e vencer um novo desafio visual.”

Oscar D’Ambrosio – Autor de diversos livros na área de arte naïf e arte contemporânea

Contatos:
ajursp@hotmail.com
Celular: (11) 9 7415-2050

Sofia

Sonhei que
Sofria por você
Sofia
Sofia Sofia
Repetia seu nome
Na madrugada
Fria
No sonho
Mentia
Repetia
Sofia te amo
Te quero
Mentia?
Ela não queria
Saber do que
Dizia
Sofria
Por ela
E por sua
Ironia
No sonho
Mentia
Sentia
Na pele
Ardia ardia
De fogo
Tudo por ti
Sofia
E nada de ti
Sofria
Sentia
Esfria

Quadro de autor desconhecido com moldura restaurada por Otto Wagner Anunciação

Na parede da sala de casa

Descrição
Óleo sobre tela
Nome: Paisagem de Paraty
Tamanho: 52 x 70 cm

Em pesquisa por imagem feita no Google fui levado a crer que o autor dessa minha pintura seja Salvador Rodrigues Jr. Sua assinatura em meu quadro está ilegível mais encontrei um quadro desse artista parecido intitulado “Parati” – Rio de Janeiro, 1951 – Óleo sobre tela.

Memórias e invencionices

I

As mil e uma noites me inspiram a escrever
As mil noites e uma noite de estórias
As noites passadas em claro
As boas noites de sono
Todas se completam em uma noite apenas

II

Criei um objeto inusitado, tipo ready-made
Composto de uma caixa de sabonete “Granado”
Com um plástico caindo por baixo
Sobre um fundo de papelão
Lembra uma água caindo do sabonete, como um banho

III

Em minha parede coloquei um crucifixo (promessa de meu pai)
Entre meus dois diplomas universitários
À esquerda o de Ciências Econômicas e à direita o de Ciências Sociais
Pendurei um terço no crucifixo e sempre penso no esforço que fiz para consegui-los

IV

Meu computador tem sido um problema para mim
Quando mais quero usá-lo mais ele não funciona
Mas sou persistente e insisto no uso
Uma hora consigo sucesso, como hoje e sai alguma coisa

V

Hoje trabalhei bastante, tinha tudo planejado
(Mesmo não conseguindo abrir o arquivo do roteiro)
Lapidei o “Anote” e atualizei meu curriculum
Segunda retomo tudo, pensando no GLP
Tenho que ter fé de que tudo vai continuar…

VI

Amanhã irei com minha cunhada ao sítio da Edna
A Luiza terá que trabalhar e depois irá a outro churrasco
No sítio teremos uma Festa Junina
Há muito que não vou lá…
Estou mesmo precisando sair um pouco e respirar
O ar puro do interior e do mato

VII

De Portugal herdei o sobrenome e o gosto pela boa comida
Do interior o gosto pelas coisas simples
De São Paulo, capital, tenho a pujança e a vontade de vencer
Higienópolis me lembra os tempos em que estarei aposentado
E o Parque da Água Branca os momentos bons do trabalho
Que os maus eu quero mesmo é esquecer

VIII

L.H.O.O.Q., que soletrado em francês soa parecido com
“Ela tem um cú caliente” acabou tornando-se o mais conhecido
Ready-made de Duchamp
Nessa obra ele simplesmente colocou um bigode e um cavanhaque
na Monalisa, de da Vinci

IX

Peru Lima
Roma Amor
Ourinhos
Pércia, que sonhei menino

X

Saratoga, minha capital imaginária
Felipe, o rei decadente de meus sonhos,
Que queima ouro em suas guerras oníricas
Meu mundo dos Silva, no enterro da Fórmula Um

O artista mato-grossense Lupércio José dos Anjos morreu nesta segunda

Conhecido como “o artista das lamparinas” Lupércio tornou-se um expoente do artesanato mato-grossense. Nessa segunda-feira, 19 de agosto de 2019, ele se foi. Seu nome eterniza-se na arte regional pela criação de lamparinas coloridas e obras feitas a partir de latas reutilizadas. Ele morreu em Nobres (a 151 km de Cuiabá), com 81 anos. Vivendo na cidade conhecida pelo ecoturismo por mais de duas décadas, Lupércio foi um dos expoentes do artesanato regional.
Foi aos 65 anos, com problemas de locomoção que ele teve que abandonar o trabalho na roça e começou a fazer peças com latas reutilizadas. Em 2018, Lupércio foi homenageado na Feira Nacional do Artesanato (Fenearte), em Recife (PE) e recebeu o título de mestre artesão.
Nasceu na Bahia em 1938, mas foi criado no Paraná. Não sabia precisar quando, mas há mais de 20 anos mudou-se para o Mato Grosso. Ele morava num bairro distante, bastante povoado, mas parecia não ter muita noção de localização ou de distância pois disse que todos o conhecem. Antes trabalhava na roça. Autodidata, foi criando as suas peças na base do ensaio e erro.
“Fui notando devagarzinho, pegando o jeito, trabalhando e conseguindo fazer”.
Teve o incentivo de Ana Maria Braga (apresentadora de programa de TV) que fez um filme com ele, que teve repercussão em outros países, como Portugal e Alemanha. O problema é que, depois dessa divulgação, as vezes recebia pedidos de fora de 500, 700 peças e ele não conseguia fazer tal quantidade. Precisaria trabalhar com muitas pessoas para dar conta.
Atendia a pedidos vindos de várias partes do Brasil e de outros países. Vendia também para quem chegar na sua casa. Não aparentava respeitar muito a ordem dos pedidos. O funcionamento do sistema de encomendas parece bastante confuso. Aparentemente, as compras mais sistemáticas eram feitas através do SEBRAE.
Gostava de criar novas peças, com desenhos diferentes, rebuscados, coloridos e formam um conjunto atraente. A confecção de suas peças exigia várias etapas. Usava como instrumentos furadeira, rebitadeira (instrumento que corta), alicate, tesoura e martelo. A parte mais elaborada e interessante no que fazia eram os desenhos decorativos. Gostava de pintar, embora levasse bastante tempo. É uma espécie de “marca” registrada do seu trabalho, fácil de ser identificada. Sentia satisfação em criar novos desenhos. Conseguia viver da sua arte, teve uma vida modesta, mas pôde construir dois cômodos em sua casa, um para dormir e outro para trabalhar. Via seu trabalho como um “divertimento”. Enquanto trabalha concentrava-se em coisas interessantes e boas, e esquecia as coisas desagradáveis. Além de ser um meio de vida.
“A gente está divertindo, passando o tempo e ganhando uns cruzeirinhos.”

Fotos: José Medeiros (Site “O Livre”)