Entre dois papéis brancos

Entre dois papéis brancos
Fiz um sanduíche com meus sonhos
De noites escaldantes de amor
E dias vividos lá fora
Foram trabalhos já realizados
E amigos presentes
Fotos de criancinhas recém nascidas
Recebidas pelo correio
Bingos de uma festa junina
Ganhos por uma velhinha de preto
A espera em um ponto de ônibus
Com o dinheiro trocado na mão
O trajeto de sempre esquecido
Na leitura de um poema de João Cabral
Deixei passar o meu ponto
E fui parar perto da Paulista
Na caminhada de volta
Parei em uma farmácia
E comprei o meu remédio
Reforço para o dia que virá
Na solidão da cidade grande

Bicharada: fotos

“7 bichinhos são explorados e maltratados por seus patrões. Cansados dessa situação, alguns fogem de suas casas, outros são expulsos e ficam sem lar. É nesse momento que eles se encontram e iniciam uma aventura em busca da felicidade. Será que conseguirão atingir seus objetivos? Venha se emocionar e cantar com a gente!”

Musical encenado no Teatro Escola Macunaíma em 2 seções no dia 22 de junho e dirigido por Rafaela Cassol, inspirado no conto “Os Músicos de Bremen” dos irmãos Grimm, com a participação de João Alexandre Matosinho como o personagem Jumento.

Com uma blusa puída

Com uma blusa puída
Saí para a rua para encontrar o sol
E a aurora de minha vida
Caminhei entre passantes apressados
Vi cachorros e pássaros
E um museu aberto ao público
Minha infância passou pela minha cabeça
Recordei amigos antigos
E passagens de meu passado
Como uma partida de futebol
E um footing na praça
Tomei um cafezinho no bar
E caminhei um pouco mais
Pois tinha outras coisas para encontrar
Como um sonho, um átimo
Um amor acabado
E uma garrafa de guaraná

Galeria Pontes apresenta seu acervo de Antônio Poteiro

Poteiro – Antônio Batista de Sousa (Antônio Poteiro) nasceu em Santa Cristina de Pousa (Portugal) no ano de 1925 e faleceu em 8 de junho de 2010, aos 84 anos. Chegando ao Brasil ainda criança, morou sucessivamente em São Paulo e Minas Gerais, viveu na Ilha do Bananal entre os Carajás e, finalmente, radicou-se em Goiânia. Ganhando a vida como fabricante de cerâmica utilitária (de onde lhe adveio o epíteto de Poteiro), aos poucos foi imprimindo qualidade artística a seus potes, estimulado por Antonio de Melo e pela pintora e folclorista Regina Lacerda. Com o passar dos anos muitos de seus potes assumiriam a condição de autênticas esculturas em cerâmica, superando pela carga estética sua condição primeira de simples recipientes caseiros para revelar, na forma cada vez mais complexa e na elaborada ornamentação, uma imaginação dominada pelo insólito e o fantástico. Passando posteriormente a pintar, a conselho de Siron Franco e de outros artistas goianos, levou para a pintura os mesmos elementos utilizados em suas peças de cerâmica, priorizando uma temática nascida do sonho e do pesadelo. É, dentre os artistas brasileiros, dos mais conhecidos e apreciados no exterior, em função do grande número de exposições internacionais de que tem participado desde 1972.

Bunico

O canto dos pássaros anunciou
E a mata em revoada: uno, mais um
Meu filho chegou…
Bunico – mamãe disse no dezembro.
Meu primeiro sobrinho, no passado, como escrevi na porta
Do guarda-roupa de casa em Ourinhos: Biriba.
É sorte grande ver um rebento chegar:
Boneco, buneco, bunico,
Martim, Tim, Nico, Nenê – Tantos pássaros.
Um pandeiro por tocar e uma peteca em repouso esperando
Seu toque mágico com as mãos firmes que Deus te deu.
Um séquito de aves na praça que meu pai gostava
E onde conheci tua mãe e comecei a sonhar contigo,
Te esperam para a comitiva que te seguirá.
O pio da mata ecoou no ventre da mãe Luiza e te acalentou.
O girino, o ovo, o feto, o bebê, o homem, o ser.
A mágica da vida e a eterna música do tempo.
No belo canto do curió e do uirapurú.
A Amazônia, o Pantanal, a mata ciliar do Paranapanema,
As curvas do pai Tietê, o céu de minha terra que é São Paulo
Que a todos recebeu e que é tua também.
As veredas de um João e o os Severinos de outro.
O Piauí todo correndo em suas veias.
Portugal e Holanda: tantas histórias
Do vaqueiro Pedro Branco e do caipira Edmundo de Dois Córregos
Da Maria no céu e da Raimunda na terra de Campo Maior.
Um João para nos ajudar a nos redescobrir.

Rua Alagoas, 29/Dez/2005.

Preparando o desfecho


tudo veio do branco
O sonho, o verso, o Nico,
o papel, eu mesmo vim
do branco, em ondas do além,
num batuque distante.
E uma lenha foi queimando
com o sol e o som ritmado.
Muita fumaça cor de cinza fez-se.
Aquilo chegava até aqui bem claro.
O preto chegou para atrapalhar.
Veio brinca-brincando, pontinhos,
e dele fez-se a escrita, a bic.
Betume, grafite, nanquim.
O sujo virou pintura: um pássaro,
um rato, um mostro, um vírus –
a comunicação ficou complicada:
um filtro criado por um japonês
melhorou deveras e o robô-menino
aprendeu uma nova língua
– o inglês – e até viajou de avião.
Viu Mickey na Disneylândia.
De náufrago virou um país
e criou este livro que ora apresento.
Atenção: mantenham a luz verde
da caixa sempre acesa
que a criança quer falar
pelo micro com vocês, quer crescer,
quer dizer, aos poucos, o que é
que tem do lado de lá…
na ilha que se encontra quando
se passa dessa para uma outra
dimensão da vida além da nossa.
Seu trabalho é tecer um imenso
tapete multicolorido e todo
desenhado de formas antigas
e históricas, que dizem muito.
Como aquele sonho que contou
onde um imenso bloco de gelo se
desprendeu e escorregou morro
abaixo fazendo a caneta nanquim
vazar e manchar a cama de tinta.
Quem fornece a linha para o tapete é
uma imensa aranha, que fica no oriente
do mundo como um satélite em órbita.
Às vezes, na noite, ela se adentra
em nossos apartamentos e deita
sua teia sobre nós, enfumaçando
nossos sonhos e nos assustando.
Seu mundo parece uma tôca quente
de cabeleireiro que suga tudo
que é ruim, feio e sujo na vida.
Aquele menino um dia cresceu e
foi trabalhar com coisas difíceis e áridas.
Vivia reunido pensando no mundo-trabalho.
No caminho de volta do Hotel-fazenda,
na crise, encontrou uma estrada cheia
de flores vermelhas nas árvores,
(Meio que dizendo que tudo estava bem e
que o campo trabalhava por nós) e,
no fim da linha, uma cidade acinzentada e
medonha parecendo um enterro em cujo
carro fúnebre estava ele mesmo, em
seu delírio de vidro. Por fim, em casa, não
encontrava a chave na mala confusa.
Precisou da ajuda bem-vinda do anjo amigo.
Quando entrou encontrou a paz e
o tempo necessário para respirar e refletir.
Por isso segue escrevendo versos:
esse é o seu verdadeiro remédio azul.
Muito ainda se tem a dizer.
O difícil é começar

Rodrigo Pecci: São Paulo e Fugindo

Rodrigo Pecci
Pintor e gravador – Porto Alegre/RS, 1976.
Tendo as ruas, becos, prédios, portos, trens e o céu, por vezes cinza, da paisagem urbana como sua principal temática, Rodrigo percebe nos lugares esquecidos, nas pessoas invisíveis, nas relações contraditórias e nos conflitos do cotidianos os elementos constituintes de sua poética e pesquisa estética. Em sua trajetória, já atuou como técnico, impressor e professor de gravura em metal para a Fundação Iberê Camargo e para o Museu do Trabalho em Porto Alegre, prestigiadas instituições culturais, onde teve a oportunidade de trabalhar com renomados artistas, tal como Maria Tomazelli, Carlos Vergara, Daniel Senise, Carmela Gross e Nelson Felix. Recebeu, em 2009, o Prêmio Açorianos de Artes Plásticas na categoria “Destaque em Gravura”. Desde 2011, reside em São Paulo, onde realizou diversas exposições e ministrou cursos e oficinas de gravura para diversas Instituições, entre elas o Instituto Tomie Ohtake e a Oficina Cultural Oswald de Andrade. Atualmente, trabalha em seu atelier particular (Atelier Trabalhoso) e ministra
cursos e oficinas de gravura no Estúdio Lâmina.

Descrição das obras:
“São Paulo” – PVA s/ madeira – 90 x 90 cm – 2019
“Fugindo” – óleo s/ tela – 40 x 30 cm – 2018

Contatos:
www.facebook.com/rodrigo.pecci.798
www.instagram.com/rodrigo_pecci
rodrigoepecci@gmail.com
WhatsApp: (11) 9 5050-0057