Cachorrin
A morte da cachorra / Dog’s death
Ela deve ter sido chutada ou atropelada por um carro sem que víssemos.
Muito nova para saber muito, ela começava a aprender
A usar os jornais espalhados pelo chão da cozinha
E a ganhar, quando os molhava, as palavras “Boa garota! Boa garota!”
Pensamos que seu reservado mal-estar era uma reação à vacina.
A autopsia revelou que seu fígado sofrera um rompimento.
Enquanto a provocávamos com brincadeiras, o sangue enchia a pele
E seu coração aprendia a repousar por um infindo tempo.
Segunda-feira de manhã, enquanto as crianças eram ruidosamente nutridas
E enviadas para a escola, ela se arrastou para debaixo da cama do caçulo.
Encontramo-la encolhida e sem forças, mas ainda com vida.
No carro indo para o veterinário ela tentou, em meu colo,
Morder minha mão e morreu. Acariciei seu pelo cálido
E minha esposa a chamou com uma voz angustiada, sentida.
Embora cercada pelo amor que a teria acolhido,
Ela sucumbiu e desapareceu, rígida.
Ao chegarmos em casa, descobrimos que, durante noite, ela,
Próxima já da dissolução, tinha suportado a mazela
Da diarreia e se arrastado pela lajota
Até um jornal deixado ali por descuido. Boa garota.
Dog’s Death
She must have been kicked unseen or brushed by a car.
Too young to know much, she was beginning to learn
To use the newspapers spread on the kitchen floor
And to win, wetting there, the words, “Good dog! Good dog!”
We thought her shy malaise was a shot reaction.
The autopsy disclosed a rupture in her liver.
As we teased her with play, blood was filling her skin
And her heart was learning to lie down forever.
Monday morning, as the children were noisily fed
And sent to school, she crawled beneath the youngest’s bed.
We found her twisted and limp but still alive.
In the car to the vet’s, on my lap, she tried
To bite my hand and died. I stroked her warm fur
And my wife called in a voice imperious with tears.
Though surrounded by love that would have upheld her,
Nevertheless she sank and, stiffening, disappeared.
Back home, we found that in the night her frame,
Drawing near to dissolution, had endured the shame
Of diarrhoea and had dragged across the floor
To a newspaper carelessly left there. Good dog.
John Updike (Shillington, Massachusetts, Estados Unidos, 18 de março de 1932 — Beverly, Massachusetts, Estados Unidos, 27 de janeiro de 2009) foi um romancista, poeta, contista, crítico de arte e crítico literário estadunidense. Tradução de Nelson Santander
Niela Arade: “No giro do seu Universo e das suas camadas… virando a chave!”, “Visão além do alcance…” e “Galáxia: um fantástico mergulho sensorial 2”
Niela Arade, nome artístico de Daniela Araujo
“Oi! Eu sou a Daniela, artista que ama cores e novas criações!”
Daniela Araujo de Deus Rodrigues, brasileira, paulistana, casada, mãe, nascida em 13.02.1975. Formada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1998. Servidora pública federal – analista judiciária no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região – São Paulo. Em 2020, em meio à pandemia, começou a pintar telas e painéis com o intuito de adequar os ambientes do seu apartamento às cores afetas a cada baguá do Feng Shui. A partir daí, aprendeu, como autodidata, a técnica do acrílico fluido derramado (“pouring”) e começou a imersão nesse Universo maravilhoso da arte abstrata, sempre inspirada por Kandinsky, precursor da Arte Abstrata. Procura expressar os sentimentos mais sinceros em cada obra, seguindo a sua intuição. Muitas vezes imagina uma determinada arte final mas, durante o processo, se pauta pelas impressões criadas, analisa o conjunto, se afasta, se aproxima, e, assim, adequa os detalhes, cores, pinceladas e espátulas para que haja um resultado agradável aos olhos e que, ao mesmo tempo, cause um envolvimento com a arte pelo observador, uma curiosidade natural e provocativa, aquela vontade de desvendar e apreciar no íntimo o propósito daquela arte, cada qual fazendo a sua interpretação. E isso é muito gratificante, essa troca de interpretações e análises profundas em relação à arte posta.
Contatos:
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danielarorego@gmail.com
Musa
Musa impassível I e II

I
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.
II
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares,
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo,
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
Francisca Júlia da Silva (Xiririca, atual Eldorado, São Paulo, 31 de agosto de 1871 – São Paulo, 1 de novembro de 1920). In “Mármores”, 1895
Nua no papel de parede
Inverness
II
No quisiera quedarse, ni salir
Ezra Pound
Cuatro paredes cuando sopla
el viento:
sin movimientos
o con el solo movimiento de los ojos
un hombre pone su atención
en el suelo
Mañana hablaremos del mar
Mañana cambiaremos el lugar
de esa ventana.
Alejandro Zambra (Santiago, Chile, 24 de setembro de 1975). In “Bahía inútil”, Santiago: Ediciones Stratis, 1999
Manchas espirais em fundo azul (Recém emoldurado)
Aspiração
Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa,
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est’alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só,
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais – homem – dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
– Poeta – bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: – que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh’alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
Alberto de Oliveira (Saquarema, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1857 — Niterói, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1937). In “Versos e rimas”, 1895