Saudade

Tu és o cálix;
Eu, o orvalho!
Se me não vales,
Eu o que valho?

Eu se em ti caio
E me acolheste
Torno-me um raio
De luz celeste!

Tu és o collo
Onde me embalo,
E acho consolo,
Mimo e regalo:

A folha curva
Que se aljofara,
Não d’agoa turva,
Mas d’agoa clara!

Quando me passa
Essa existencia,
Que é toda graça,
Toda innocencia,

Além da raia
D’este horizonte—
Sem uma faia,
Sem uma fonte;

O passarinho
Não se consome
Mais no seu ninho
De frio e fome,

Se ella se ausenta,
A boa amiga,
Ah! que o sustenta
E que o abriga!

Sinto umas magoas
Que se confundem
Com as que as agoas
Do mar infundem!

E quem um dia
Passou os mares
É que avalia
Esses pezares!

Só quem lá anda
Sem achar onde
Sequer expanda
A dôr que esconde;

Longe do berço,
Morrendo á mingoa,
Paiz diverso…
Diversa lingoa…

Esse é que sabe
O meu tormento,
Mal se me acabe
Aquelle alento!

Ah, nuvem branca
Ah, nuvem d’oiro!
Ninguem me estanca
Amargo choro;

E assim que passes
Mesmo de largo…
Vê n’estas faces
Se ha pranto amargo.

Tu és o norte
Que me desvias
De ir dar á morte
Todos os dias;

A larga fita
Que d’alto monte
Cerca e limita
O horizonte!

Tu és a praia
Que eu sollicito!
Tu és a raia
D’este infinito!

Se ha uma gruta
Onde me esconda
Á força bruta
Que traz a onda;

Á força immensa
D’esta corrente
D’alma que pensa,
Alma que sente;

Se ha uma véla,
Se ha uma aragem,
Se ha uma estrella,
N’esta viagem…

É quem eu amo,
A quem adoro!
E por quem chamo!
E por quem choro!

João de Deus (São Bartolomeu de Messines, Portugal, 8 de março de 1830 — Lisboa, Portugal, 11 de janeiro de 1896). In “Ramo de flores”

Dolor

Virá um e outro abril,
E envolto em flores — dirá :
Já a terra tem verdores,
E as aves cantam amores.
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Vem chegando as andorinhas.
O que é, diz, que as chama cá ?
Senão os mimos do sol,
Que lhes afagam a prole.
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Estremece e abrolha a arvore,
Que mil fructos te dará.
Sorrí toda a natureza,
A fera perde a braveza,
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Das estações a mais doce,
Que outra mais doce não ha,
Traz aos seres vida nova,
Tudo nos campos renova,
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Folga o pobre de contente,
Que a festa vigor lhe dá.
É universal a festa.
No mundo nada te resta ?
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
— Detem-te ; perdi a amante.
Sim — nada me resta já !
A festa, o mundo—que importa !
Para mim, depois que é morta,
Já Primaveras não ha.

A. X. Rodrigues Cordeiro, pseudônimo de António Xavier Rodrigues Cordeiro (Cortes, Portugal, 28 de dezembro de 1819 — Lisboa, Portugal, 11 de dezembro de 1896)

A voz

É tão suave ess’hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enteado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano.
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Era blasfema ideia,
Que triunfava enfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

“Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso,

Tipo da vida do homem,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pai, confia,
Do raio ao cintilar.

Ele o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!”

Oh, sim, torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.

Alexandre Herculano (Lisboa, Portugal, 28 de março de 1810 – Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém, Portugal, 13 de setembro de 1877)

Trecho de uma das Cartas portuguesas

Estou viva, infiel que sou! E faço tanto para
conservar a minha vida como para perdê-la! Ah!, morro de
vergonha! O meu desespero estará então apenas nas minhas
cartas? Se te amasse tanto como mil vezes te tenho dito, não teria
já morrido há muito tempo?
Enganei-te!, e és tu que te deves queixar de mim. Ai de
mim!, e porque o não fazes? Vi-te partir, não posso ter esperança
de te ver voltar, e, no entanto, respiro! Enganei-te, afinal, e peço
o teu perdão.

Sóror Mariana Alcoforado, pseudônimo de Mariana Mendes da Costa Alcoforado ou Mariana Vaz Alcoforado (Beja, Santa Maria da Feira, Portugal, 22 de abril de 1640 – Beja, Portugal, 28 de julho de 1723). In “Cartas portuguesas”, p. 47

Ontem pôs-se o sol

Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade,
para não tornar c’o tempo!

Tôdalas cousas, per tempo,
passam, como dia e noute;
ua só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido em quanto há sol,
nela enquanto não há dia.

Mal quero per um só dia
a todo outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sôbre a terra,
debaxo minha vontade.

Dentro na minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute:
no milhor pon-se-me o sol!

Primeiro não haverá sol
que eu descanse na vontade.
Pon-se-me ua escura noute
sôbre a lembrança de um dia…
Inda mal porque houve tempo
e porque tudo foi terra.

Haver de ser tudo terra
quanto há debaixo do sol
me descansa, porque o tempo
me vingará da vontade;
se não que antes dêste dia
há-de passar tanta noute!

Bernardim Ribeiro (Torrão, Portugal, 1482 — Lisboa, Portugal, 1552). In “Antologia poética”