Risco de queda (Trecho)

O olho dele vai denunciar
Os olhos de Emmanuel normalmente davam a sensação de doçura. Ou mudavam dependendo do momento? Enganava. Ele me contempla agora, sem expressão. Não sei se finge ou ficou assim por algum distúrbio. Era um mestre em convencer, ser amável, sem falar nas centenas de expressões de ternura, pobre coitado, necessitado, modesto, puxa-saco de alta potência. Quantos papéis viveu! Como se eu não tivesse ideia do quanto é mentirosa esta exorbitância de expressões. Ele, um falso total, Judas Iscariotes, um Silvério dos Reis, Brutus, Pétain, Vidkun Quisling, Andrey Vlasov, segundo a curiosa lista de traidores históricos. O canalha me contempla por três segundos e desvia o olhar. Como se se ausentasse.

Ele, se está lúcido, sabe quem sou. Terá ideia de que vim pensando em matá-lo? É o que pretendo, gostaria de acabar com ele, ou não terá tido sentido essa minha imensa busca. Milhares de litros de gasolina gastos atravessando o Brasil, gastando dinheiro. Jamais imaginei que estivesse como está agora, ao meu lado. Paralisado, mudo. Ou fingindo?

Não podem ter sido inúteis estes anos de ansiedade. Senti-me um detetive, como aqueles sobre os quais li por anos na revista Mistério Magazine de Ellery Queen. Ficava embalado por tanta imaginação, tantos modos de chegar ao assassino, ao culpado. Espero que minha presença aqui deixe Emmanuel alarmado. Ou incomodado. Prefiro aterrorizado. Por anos, procurei esse homem até descobri-lo nessa casa de repouso afastada de tudo e de todos. Demorei. Ainda que paciência nunca tenha sido uma qualidade minha.

Os conselhos do bilionário que fez sua fortuna apenas com ações da Microsoft-Palpites da ex-BBB que ganhou mais de sessenta vezes na loteria para a Mega da Virada. Como os jovens poderão herdar trilhões de dólares nos próximos vinte anos. Não ter bitcoins na carteira pode ser seu grande erro.

Todos loucos, ou o quê?
Um grande crítico de teatro, Jefferson Del Rios, me enviou certa vez um e-mail apenas com uma frase de Beckett.

“Nascemos todos loucos.

Alguns continuam.”

Tirada de algum texto, peça teatral, sei lá. Copiei, modifiquei e emoldurei.

Nascemos todos

filhos de uma puta.

99,7% continuam.

Quando crianças, jogávamos um jogo: quem suporta encarar por mais tempo o olhar do outro. Quem desviava a vista, perdia. Jovens, sabíamos que se alguma mulher devolvesse e mantivesse o olhar fixo, havia nela o consentimento, “pode se aproximar”. Não, nenhuma nostalgia, cada tempo é como é, seja qual for. Se Emmanuel não me der um sinal, ficarei frustrado, é importante ele perceber que estou aqui e se sentir importunado. Quero provocá-lo até que se revele putíssimo. Que chore em desespero. Vai desejar que eu desapareça, não o veja como está. Como pode me ignorar? O tanto que fomos próximos. Ainda existe nele uma centelha de entendimento que o faça pensar: “Por que Gregório está aqui?”. Ele me contempla, sem dizer palavra. Será que pergunta por que estou aqui? Ou indagará: “Conheci? Acho que sei quem é e ele vem me sacanear. Um filho de uma puta. Melhor ficar na minha.”

Penso nele sem parar. Posso estar louco. É pura raiva, como se fosse eu, ainda que Emanuel jamais tenha pensado no outro. Vim visitá-lo para descobrir ou confirmar que está fora de si, fodeu-se de vez. Ou está apenas dissimulando, no que sempre foi rei. Mauca era seu apelido. Se for assim, de que me adianta estar aqui? É um ato impiedoso querer humilhá-lo? Não sei se estou feliz, curtindo ou tomado por imensa pena. Ou me acho um enorme filhodeumaputa. Desde quando senti piedade? Vou me afastando e juro: não é fantasia, o olho dele me acompanhou. O filho da puta tem controle do olhar. Aliviado por eu estar me retirando? Pode ser que tenha sido imaginação minha. Quero tanto que me reconheça.

Quem paga a conta dessa casa de repouso, os remédios, tudo? Ele tinha dinheiro guardado? Ganhou na Mega?

O enfermeiro, ou cuidador, se aproximou.

– Terminou a visita, meu senhor?Terminei.

– É ele mesmo que procura? Tem vindo tanto. Não está perdendo tempo?

Perguntas que repetem desde minha primeira visita. Mudaram duas vezes de cuidador.

– É ele mesmo, sei.

– E o que quer?

– Atormentá-lo.

– Maldade! Para quê? Um homem fodido, nem sabe onde está.

Terei de repetir isso a cada cuidador? Por que a palavra atormentar espanta, se eles nem sabem quem é Emmanuel? Piedade? Olhei para Emmanuel — o que pensei ser uma ameaça de riso tinha desaparecido. A esfinge de sempre. Seu rosto pareceu ter cem anos.

Ou ele está envelhecendo velozmente? Quero que esteja lúcido quando matá-lo!

Não falo com Irene há uma semana. Ela diz não estar me reconhecendo mais. Passeio pela casa sem falar nada. Como todo casal, já tivemos essas rusgas; depois de um tempo, elas se dissolvem. Irene liga a tevê, sento-me ao seu lado, durmo o filme inteiro. Não suporto o noticiário, os Estados Unidos invadindo o que possa haver de país com petróleo; americano deve beber petróleo como quem bebe água. E cagam gasolina! Chega para mim. Ou vou lá e faço o que vim fazer ou desapareço; não me sinto mais eu. Seja lá o que isso queira dizer.

Ignácio de Loyola Brandão (Araraquara, São Paulo, 31 de julho de 1936) é um contista, romancista e jornalista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. É autor de mais de 40 livros, entre os quais se destacam “Bebel que a cidade comeu”, “Zero”, “Não verás país nenhum”, “O homem que odiava a segunda-feira” e “O menino que vendia palavras”, tendo sido traduzido para diversos idiomas. Recebeu, entre outros prêmios, o Jabuti em cinco ocasiões, sendo seu maior vencedor, e o Machado de Assis pelo conjunto da obra em 2016. In “Risco de queda”, que é o seu romance mais recente, escrito em comemoração aos seus 90 anos

Para pensar

Esta famosa frase é de Karl Marx (Tréveris, Renânia-Palatinado, Prússia, Confederação Germânica, 5 de maio de 1818 – Londres, Inglaterra, 14 de março de 1883), presente na introdução de sua obra “Contribuição à crítica da economia política” (1859). Ela resume o método dialético para compreender a realidade. Ponto de partida real vs. ponto de partida no pensamento: Na vida real, o objeto ou a sociedade já existem de forma completa e complexa (o concreto real). Porém, quando começamos a estudar esse objeto, nossa mente a princípio só capta impressões vagas ou caóticas. Para entender o real, o pesquisador precisa isolar partes, conceitos e relações (as determinações abstratas). Por exemplo, na economia, separa-se o valor, o trabalho, o dinheiro e o mercado. O conhecimento verdadeiro não fica apenas nos pedaços isolados. Ele reconstrói o objeto na mente, juntando todas essas peças interligadas. O resultado final — o concreto pensado — é a união rica e complexa de múltiplos conceitos que explicam como o todo funciona de verdade.

Nas águas do tempo (Trecho)

Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
– Mas vocês vão aonde?
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
– Voltamos antes de um agorinha — respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta tora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “A menina sem palavra / histórias de Mia Couto”, 1° ed., São Paulo: Boa Companhia, 2013. Filho de imigrantes portugueses, nasceu numa das cidades mais afetadas pela guerra civil moçambicana (1976 a 1992). Aos catorze anos, publicou seus primeiros poemas no jornal “Notícias da Beira”. Estudou medicina antes de se formar em biologia e atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental, além da literatura. Na década de 1970, foi repórter de “A Tribuna”, na capital, Maputo. Trabalhou ali por um ano, até o jornal ser fechado por forças opostas à independência. Tornou-se batalhador pela libertação de seu país. E um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance “Terra sonâmbula” foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Em 2013, ganhou o Prêmio Camões, conhecido como a mais importante premiação da língua portuguesa

Postagem dedicada à Renato de Azevedo, da Loja Hier – Antiquário, localizado na Rua Vitorino Carmilo, 664 – Barra Funda, São Paulo, que mui gentilmente me presenteou com essa edição

Receita de tacacá

Ponha, numa cuia açu
ou numa cuia mirim
burnida de cumatê:
camarões secos, com casca,
folhas de jambu cozido
e goma de tapioca.
Sirva fervendo, pelando,
o caldo de tucupi,
depois tempere a seu gosto:
um pouco de sal, pimenta
malagueta ou murupi.
Quem beber mais de 3 cuias
bebe fogo de velório.
Se você gostar me espere
na esquina do purgatório.

Luiz Bacellar (Manaus, 4 de setembro de 1928 – 9 de setembro de 2012) foi considerado um dos poetas mais expressivos da literatura amazonense e ganhou com seu livro de estreia intitulado “Frauta de barro” o Prêmio Olavo Bilac laureado pela prefeitura do Rio de Janeiro. Esse poema ensina o leitor a fazer o tacacá, uma refeição típica da região amazônica

A pintura brasileira na cultura popular: uma amostra

Trazendo um pouco de arte para nosso “Vivendocidade” apresento o novo vídeo da Galeria Pontes, onde trabalho, que apresenta três artistas de expressão na cultura artística de nosso Brasil. Desses dois são pernambucanos (Samico e Alcides Santos) e um é paraibano (Luiz Tananduba). O único que ainda pinta é Tananduba. Alcides Santos faleceu em 2007 e Samico em 2013. Falarei um pouco sobre seus trabalhos pictóricos.

Para introduzir nada como falar da Arte Popular Brasileira. Ela é bonita, criativa e cheia de vida. Tem um aspecto lúdico que mexe também com jovens e crianças. Encanta e surpreende. E, ao contrário da arte erudita, ela é uma produção espontânea, na qual não sobra espaço para a educação formal ou acadêmica. Quando algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no máximo informalmente com outro artista/ artesão que funciona como iniciador.

Na arte popular há muito mais espaço para a inventividade e para o saber fazer pessoal do que na arte erudita. A imaginação é muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que o artista inventa para resolver os problemas na confecção de sua obra. A arte popular é a viva expressão da criatividade do nosso povo. Através da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo íntima relação entre o real e o simbólico. 

Dos muitos pintores a galeria destaca em seu vídeo três deles:

Samico – Recife-PE (1928 – 2013) – tem sua produção é marcada pela recuperação do romanceiro popular nordestino, por meio da literatura de cordel e pela utilização criativa da xilogravura. Suas gravuras são povoadas por personagens mitológicos e outros, provenientes de lendas e narrativas locais, assim como por animais fantásticos e míticos.

Alcides Santos – Recife-PE (1945 – 2008) – Foi enfermeiro de Vicente do Rego Monteiro e desse contato surgiu sua vontade de ser artista. Em 1969 começa a pintar, sob o estímulo do artista Antônio Cavalcanti, que o inicia na utilização das tintas a óleo. Nos anos 70 já havia chamado a atenção do poeta Joaquim Cardozo e do escritor Hermilo Borba Filho, que lhe dedicaram textos. Foi um dos destaques da XXIII Bienal de São Paulo, tendo uma obra utilizada como o cartaz desse evento.

E Luiz Tananduba – Caiçara-PB (1972) – que começou a pintar em 1985, com orientação do artista plástico e seu pai adotivo, Alexandre Filho. Sua inspiração vem de uma visão idealizada e subjetiva do povoado de Caiçara, interior do estado, lugar onde cresceu e tomou emprestado seu sobrenome artístico “Tananduba”, um dos sítios da região.

Vídeo realizado pelo jornalista Adriano Ambrosio Nogueira de Sá.

Para maiores detalhes e informações acesse o site da galeria (http://www.galeriapontes.com.br/).

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (21/08/2014)

Postal

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sôr, Portugal, 4 de setembro de 1974). In “Gaveta de papéis”