Blues da piedade

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é Lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só pras pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê um pouco de coragem

Ah, ah, um pouco de coragem
Ah, ah, lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Cazuza, nome artístico de Agenor de Miranda Araújo Neto (Rio de Janeiro, 4 de abril de 1958 – Rio de Janeiro, 7 de julho de 1990) e Roberto Frejat (Rio de Janeiro, 21 de maio de 1962). Esse “blues” foi uma letra escrita no hospital e a inspiração para o refrão veio de uma música mexicana chamada “Oración Caribe”. Nos tempos do Barão Vermelho (1982 – 2005), essa inspirada dupla criou esse manifesto contra a hipocrisia e a indiferença. A música inverte a lógica da compaixão, pedindo piedade não para os marginalizados, mas para a “gente careta e covarde”, clamando que lhes sejam dadas grandeza e coragem para enfrentar a realidade. Lançada no álbum “Ideologia” (1988), a canção foi escrita quando o artista já enfrentava o diagnóstico da AIDS. A observação do sofrimento e a lucidez sobre o preconceito influenciaram a composição. O termo “blues” no título reforça o tom melancólico e de lamento da canção. Em vez de se vitimizar, Cazuza utiliza o blues como um desabafo visceral, dirigindo suas palavras tanto aos “miseráveis” que vagam pelo mundo quanto às pessoas de “alma bem pequena”, que se apegam a superficialidades

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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