Coelho cai / Rabbit at rest – 1990 (Trecho inicial, orelha e contracapa)

Coelho paira acima daquele antigo mundo de que se lembra bem, rico, em paz.
Coelho cresce

Para o indolente, comida é veneno, não alimento.
Life and times of Frederick Douglass

1
FL

No meio da multidão bronzeada e irrequieta que, passado o N Natal, lota o Southwest Florida Regional Airport, Coelho Angstron tem de repente a sensação estranha de que quem vai se encontrar com ele, quem está voando, invisível, prestes a pousar, não é seu filho Nelson, com sua nora Pru e os dois filhos do casal, e sim algo mais sinistro, algo que é só seu: sua morte, que tem vagamente a forma de um avião. A sensação lhe dá um frio na espinha, que nada tem a ver com o ar-condicionado. É bem verdade, porém, que há trinta anos ele se sente constrangido sempre que tem de enfrentar Nelson.
O aeroporto é relativamente novo. Para chegar lá, sai-se da Interstate 75 na saída 21, percorrem-se cinco quilômetros numa auto-estrada de pista dupla, que apesar das palmeiras magras enfileiradas, do capim-de-burro impecavelmente aparado e excessivamente verde às suas margens, parece não levar a lugar nenhum.Não há outdoors, nem lojinhas e restaurantes de beira-estrada, nem nenhuma dessas casas de um andar, com telhados brancos para refletir o sol, que são construídas aos montes aqui. A pessoa tem a impressão de que se enganou. No espelho retrovisor, um Camaro vermelho, conversível, ansioso, está colado atrás do carro de Coelho.
“Harry, não precisa correr. A gente está até adiantada.” Janice, a mulher de Coelho, disse isto a ele quando estavam indo para lá. O que o irritou foi o tom condescendente, cauteloso, que ela adotou de uns tempos para cá, como se ele estivesse ficando senil antes do tempo. Coelho olhou para Janice e a viu ajeitar uma mecha rebelde de cabelo semigrisalho que insistia em cair em seu rostinho duro e moreno como uma noz. “Meu bem, tem alguém colado em mim”, Coelho explicou, e passou para a pista da direita, deixando o ponteiro do velocímetro cair para abaixo de cem. O Camaro conversível passou na disparada, dirigido por uma moça negra, de pele cor de chocolate, com um chapéu de aeromoça de feltro cinzento, o queixo e os lábios embicados para a frente, sem sequer olhar para o lado. Isso também o irritou. Visto de trás, o Camaro parece ter uma boca, dois beiços gordos de metal, entreabertos numa careta zombeteira. Assim, foi talvez neste momento que Harry começou a ficar cismado.
O prédio do aeroporto finalmente aparece, comprido, branco, achatado, como uma versão ampliada das clínicas – clínicas de odontologia, de quiroprática, de cardiologia, clínicas para tratamento de artrite, clínicas legais e médico-legais — que ladeiam as avenidas ensolaradas desse estado geriátrico. O estacionamento fica a poucos metros da porta automática de vidro fumê: a Flórida paparica as pessoas.

Orelha:

Em Coelho cai, segundo a maioria dos críticos a obra-prima de John Updike, chega ao fim a saga de Harry Angstrom, o Coelho, um americano médio cuja complicada vida serviu de fio condutor para o autor traçar, entre irônico e amargo, um amplo e minucioso perfil psicológico e social da cultura americana de classe média nas últimas três décadas.
Em 1989, Coelho está com 55 anos, semi-aposentado, dividindo o ano entre seu apartamento na Flórida e a casa no subúrbio rico de Brewer, modernizada graças à instalação no local de indústrias de alta tecnologia. Mas Coelho ainda não encontrou a paz: não o incomoda apenas a inatividade prematura – viu-se afastado contra sua vontade do comando da concessionária Toyota, agora dirigida por seu filho Nelson —, mas também pelo excesso de peso ocasionado pelos doces e pelas comidas gordurosas que consome compulsivamente. E seu coração já começa a sinalizar, com pontadas e dores no peito, o infarto agudo do miocárdio.
O progressivo desligamento e desinteresse de Coelho em relação à vida tem sua contrapartida em Janice que, rejuvenescida pelo sol da Flórida, lança-se em vários projetos novos e começa uma nova carreira, na Pensilvânia, como corretora de imóveis. Cabe a ela também enfrentar de cabeça fria a ruína do negócio familiar.
Poucos personagens da ficção foram tão exaustivamente examinados e tão nitidamente descritos e imaginados quanto Harry Angstrom e seu círculo social nesta série de quatro romances iniciada com Coelho corre (1960) e encerrada com Coelho cai. Das urgências do corpo às perplexidades e anseios do espírito, das proezas atléticas e prazeres sexuais ao declínio e colapso físicos, das dificuldades financeiras aos confortos da afluência, da vida familiar e dos relacionamentos amorosos às asperezas da solidão — aqui está toda a longa e complexa trajetória das vidas americanas — e não apenas delas — na segunda metade do século XX.

Contracapa:

Considerada pela crítica americana como o projeto literário mais ambicioso das últimas décadas, a tetralogia de John Updike sobre a vida de Harry Angstrom, o Coelho, termina com este Coelho cai, lançado nos Estados Unidos em 1990 e ganhador do mais importante prêmio literário americano, o Pulitzer.
Semi-aposentado aos 55 anos, devorando compulsivamente todo tipo de comida inadequada para seu coração e matando o tempo na ensolarada Flórida, Coelho continua a correr… Desta vez não mais em busca da graça e da glória de seus dias de astro juvenil de basquete, mas de seu próprio fim.

John Updike (Shillington, Massachusetts, Estados Unidos, 18 de março de 1932 — Beverly, Massachusetts, Estados Unidos, 27 de janeiro de 2009) foi um romancista, poeta, contista, crítico de arte e crítico literário estadunidense. In “Coelho cai”, tradução de Paulo Henrique Brito, São Paulo: Companhia das Letras, 1992

EDOCRF – Romance do pavão misterioso (pp. 32)

José Camelo de Melo Rezende
Capa do do cordel “O Romance do Pavão Mysteriozo”
Tamanho: 38,3 x 28 cm
Em papel arroz – Emoldurado

José Camelo de Melo Rezende foi um poeta e cordelista brasileiro. Destaca-se por ser um dos maiores autores da literatura de cordel brasileira, trabalhou como marceneiro e carpinteiro e a partir da década de 1920 iniciou nas poesias em folhetos. Nasceu em 20 de abril de 1885 em Pilõezinhos, um município localizado na Paraíba, mais especificamente na região de Guarabira e teve sua produção literária nas décadas de 1920 e 1930. Faleceu em 28 de outubro de 1964 em Rio Tinto, Paraíba. Ele é o autor do cordel “O romance do pavão mysteriozo”. Essa obra é considerada o maior clássico da literatura de cordel brasileira, escrita em 1923, sendo a mais vendida do país e conhecido no mundo inteiro. Essa xilogravura acima ilustra esse clássico da literatura de cordel.

Na exposição “A Xilogravura Popular – xilógrafos e poetas de cordel” e no livro de mesmo nome essa xilogravura é mostrada. Destaco um trecho do livro que diz: “O livro, ilustrado com fotos e poemas, traz a história e a análise do cordel e traça a relação entre cordel e xilogravura. As gravuras populares apresentadas retratam muito bem o panorama da xilogravura popular numa época muito importante, o início dos anos 1970. Para essa exposição, que mostrou a extraordinária riqueza do imaginário popular do sertão nordestino, os curadores liderados por Edna Matosinho de Pontes adquiriram junto ao marchand recifense e proprietário da Ranulpho Galeria de Arte, Carlos Ranulpho de Albuquerque, as xilogravuras antigas de xilógrafos importantes, entre eles J. Borges e Dila. A maioria dessas xilogravuras expostas e disponibilizadas no livro foram lançadas pela Editora Guariba, criada por Carlos Ranulpho de Albuquerque e, em entrevista em vídeo disponibilizada no canal do YouTube da Galeria Pontes (https://www.youtube.com/watch?v=GkGf0nc-K5U), ele relata sua experiência na impressão delas.”

Agora segue um trecho do livro “Cordel: Do encantamento às histórias de luta” de Maria José Fialho Londres que fala um pouco dessa interessante xilogravura:

“Vendo o retrato da condessinha trancada pelo pai, em Atenas, e que só aparece à janela durante uma hora, uma vez por ano, Evangelista apaixona-se por ela. Divide com João Batista, seu irmão mais velho, a herança que o pai lhes deixara, na Turquia, e parte para Atenas. Hospeda-se em um hotel modesto, para não chamar a atenção, “negando assim sua pista / só para ninguém saber / que era capitalista” e planeja encontrar-se com a condessinha. Para isso, contrata um engenheiro e artista que descobre um meio de acesso: inventa um aeroplano na forma de um pavão. Evangelista faz incursões ao quarto da princesa, que a princípio se assusta e chama o pai. O moço desaparece, pelo telhado, no seu pavão. O pai entrega à filha uma banha amarela para passar na cabeça do intruso, que assim é identificado e preso, mas consegue escapar no seu pavão.
Evangelista faz outra visita à condessinha: em prantos, ela lamenta tê-lo traído, reconhece o despotismo do pai ao privá-la de liberdade. Decide fugir com ele. Fogem, no pavão, para a Turquia. O conde morre de raiva e a mãe, conciliadora – “saíste do cativeiro / fizeste bem em fugir”‘ — chama o jovem casal para morar em Atenas.
O enredo sugere passado (a condessinha trancafiada pelo pai…) mas apresenta aspectos modernos (fotógrafo, jornalista).
A fantasia unida ao engenho moderno cria a ave e o mistério: um aeroplano travestido de pavão. A ambiguidade temporal parece proposital, representando a relação entre atraso e modernidade, esta vencendo aquele. Aplica-se a imaginação, a coragem e a técnica contra a força da autoridade. O romance é muito bem escrito, com momentos de grande espontaneidade. Veja-se o pavão:
Movido a motor elétrico depósito de gasolina com locomoção macia que não fazia buzina a obra mais importante que fez em sua oficina
Tinha cauda como leque as asas como pavão pescoço, cabeça e bico lavanca, chave e botão (sic) voava igual ao vento para qualquer direção.”

21. EDQCRF – Romance do pavão misterioso
Autor: sem indicação
Editor proprietário: José Bernardo da Silva
Lugar: Juazeiro, Bahia
Data: 10-7-1965

Maria José Fialho Londres. In “Cordel: Do encantamento às histórias de luta”. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983. Originalmente apresentada como tese de doutoramento à Universidade de Paris III, Sorbonne, em 1978.

One of Pessoa’s 35 sonnets

32

Se eu capto dos sentidos o sentido,
Sentir já tem sentido antes que eu sinta.
Se ouço, ouviu o Ouvir antes do ouvido.
Se vejo, o Ver avista a prévia vista.

Em parte sou a Alma, em parte eu mesmo –
sou Alma nesse todo em mim presente,
e eu, a espoliada parte, cujo senso
engana mas ainda me pertence.

O resto é ver sentidos nessa imagem,
que vem para explicar e passa, em vão,
qual mensageiro imita da mensagem
O aspecto e não explica a explicação,

como se a chave de carta secreta
achássemos escrita em língua incerta.

XXXII

When I have sense of what to sense appears,
Sense is sense ere ’tis mine or mine in me is.
When I hear, Hearing, ere I do hear, hears.
When I see, before me abstract Seeing sees.

I am part Soul part I in all I touch –
Soul by that part I hold in common with all;
And I the spoiled part, that doth make sense such
As I can err by it and my sense mine call.

The rest is wondering what these thoughts may mean,
That come to ex´lain and suddenly are gone,
Like messengers that mock the message mien,
Explaining all but the explanation;

As if we a ciphered letter’s cipher hit
And find it in an unknown language writ.

Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “35 sonnets”. Tradução Philadelpho Menezes. (Edição bilíngue). São Paulo: Arte Pau-Brasil Livraria e Editora – Seção achados & perdidos, 1988

A iniciação e o itinerário na arte

Oficina de Mestre Noza: um instante de criação. Personagem síntese da inventiva de um povo, Mestre Noza conta histórias de Lampião, Maria Bonita e do beato Lourenço do Caldeirão.

Noza é o nome artístico de Inocêncio da Costa Nick e ele foi um gravador, escultor e santeiro nascido em 1897 em Taquaritinga do Norte, Pernambuco, e falecido em 1984 em São Paulo, capital.

É Mestre Noza quem fala:
“se você me perguntar como foi que eu aprendi essas artes, eu digo assim: foi uma velha que me ensinou, a ‘precisão’. Porque quem não quer roubar e não quer se empregar, inventa muita coisa”.
Mestre Noza – Inocêncio da Costa Níquel, o mais importante escultor, xilógrafo e entalhador de Juazeiro do Norte, morto em 1984, com quase 90 anos de idade, começou como aprendiz, na oficina do mestre Vicente Dias, orientado pelo Padre Cícero, após ter roubado, para casar, uma moça da vizinha cidade de Jardim:
“… eu era muito pobre e ela de uma família meio rica, e eu tinha vergonha dela… porque eu tinha muita coragem naquele tempo, roubar uma moça de importância era muita coragem, né? Tinha duas resezinhas, vendi por cento e cinquenta mil réis, e fiquei a rondar… não dava para a despesa daquela mulher. Entrei a pensar o que era de fazer e achei que nessa arte dava, porque eu não tinha oficina e não tinha ferro. Comprei uma faquinha cega e entrei na arte. O mestre que me quis era doido, ele era doido demais. Passei lá dezenove dias, deixei a mulher em casa sem nada, quando voltei ela perguntou: ‘cadê?’. Eu digo: ‘o homem não me deu nada’… não gosto de emprego, gosto de trabalhar por minha conta… porque a gente quando vai entrar num serviço assim, é mesmo que na escola, que vai aprender qualquer coisa, é como cego, ninguém sabe de nada…”
Assim nasceu um dos mais originais santeiros, que se tornaria conhecido por fazer imagens do Padre Cícero para todo o país. Em 1965, Mestre Noza grava a “Via Sacra”, cujas quatorze peças originais são editadas em Paris em um álbum que leva o artista ao mercado internacional. Seu trabalho sobre “Os Doze Apóstolos” é publicado pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, em 1976. Sua oficina, em Juazeiro do Norte, torna-se ponto de encontro de artistas, poetas de cordel, gente interessada, curiosos, compradores daqui e de fora, sobretudo franceses. Esses últimos tiveram uma influência decisiva na carreira do mestre, ao aconselhá-lo a deixar de lixar e pintar suas imagens:
“— os primeiros santos que o senhor fez, no começo do seu trabalho, eram pintados ou eram assim?
— não, eram de tinta, até 1960, tinta de santo, de fazer santo.
— Foram os franceses, viu, aquele povo foi muito bom comigo.
— por que o senhor deixou de pintar?
— porque os franceses pediram a mim, que eu não lixasse também, porque eles achavam que tirava a arte.
— e o senhor acha mais bonito pintado ou…
— não, sem a tinta, sem a tinta. A tinta mata o gosto daquela arte”
Pouco antes de sua morte, em depoimento prestado ao CERES, Mestre Noza relembrou histórias de sua vida, episódios de guerra e cangaço, encontros com Lampião, a importância do Padre Cícero em seu trabalho. Vivia modestamente em Juazeiro do Norte, como sempre vivera, saindo diariamente ao cair da noite para “caminhar pelos matos”, até altas horas.
Embora poucos tenham uma trajetória tão rica quanto a de Mestre Noza, outros depoimentos revelam também que, com muita frequência, os caminhos do artista são variados e imprevisíveis, feitos de acaso, oportunidades, golpes de sorte, sucessos, fracassos e esquecimento. Como acontece, aliás, em todos os meios, em todas as artes.

Sylvia Porto Alegre. In “Mãos de mestre: Itinerários da arte e da tradição”. Fotografias de Maurício Albano e prefácio de Maria Isaura Pereira de Queiroz. São Paulo: Editora Maltese, 1994. Ela é antropóloga, doutora pela USP, com tese voltada para o artesanato cearense e como que mapeou as manifestações artísticas do interior desse estado. E a abrangência e a profundidade com que estuda estas questões dão a elas um interesse globalizante, universal. O ponto de vista que ela adota é o de compreender as culturas populares a partir da ruptura com uma visão distorcida e folclorizante. Ela dá voz e vez aos produtores populares. São eles que discutem o ofício, sua inserção no mercado,as implicações das manifestações culturais no contexto social. Organiza o material, funciona como catalisador , a partir de uma forte e consequente articulação teórica e rege esta polifonia de santeiros, artesãos do barro, xilógrafos, de todos aqueles que atuam neste campo fronteiriço entre elaboração estética e o pragmatismo funcional. Esta pesquisa acende oportunos focos de luz sobre questões pouco discutidas. Por fim, ela busca dar uma forma poética a este texto que é uma valiosa contribuição à discussão sobre cultura, mais que oportuna num instante em que os segmentos populares se organizam e ganham força nos movimentos sociais.

E este livro mostra um pouco da arte de Nino através de fotografias tiradas dele e de suas esculturas em madeira:

Bonecos de Nino, Juazeiro do Norte, Ceará.
Nino, a criação sem limites.
O estilo de Nino, uma marca pessoal.

João Cosmo Felix, conhecido como Nino, foi um renomado escultor brasileiro nascido em 1920 em Juazeiro do Norte, Ceará, e falecido em 2002 na mesma cidade.