De Solstício de verão

VIII

Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.

Giorgos Seféris (Esmirna, Turquia, 13 de março (29 de fevereiro, no calendário juliano) de 1900 — Atenas, Grécia, 20 de setembro de 1971). Poeta laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1963. In “Antologia Poemas”, São Paulo: Editora Nova Alexandria, 1995. Tradução de José Paulo Paes

Suite dos pescadores

Jorge Amado (Itabuna, Bahia, 10 de agosto de 1912 – Salvador, Bahia, 6 de agosto de 2001) – Mar morto, Editora Martins, 1936. Os personagens centrais do livro são o mestre de saveiro Guma, sua esposa Lívia, o amigo Rufino, o seu companheiro de cais Mestre Manuel e a valente prostituta Rosa Palmeirão, com a presença mítica e cultural de Iemanjá (também chamada Janaína, Princesa de Ayoká) movendo as lendas e o destino dos homens do cais de Salvador, num mundo de pescadores, malandros e um toque de modernidade com a professora Dulce e o médico Rodrigo.

Meu irmão Caimmy eu gostaria,
De ouvir a sua poesia,
E nos contar sobre a canção do pescador…
Vamos navegar no mesmo mar de nostalgia…
E lembrar o dia…
De uma pescaria… em Salvador…

Minha jangada vai sair pro mar,
Vou trabalhar, meu bem querer,
Se Deus quiser quando eu voltar,
Do mar,
um peixe bom, eu vou trazer…
Meus companheiros também vão voltar,
E a Deus do céu vamos agradecer!

Adeus, Adeus…
Pescador não esqueças de mim!
Vou rezar pra ter bom tempo,
Meu nego,
Pra não ter tempo ruim…
Vou fazer sua caminha macia…
Perfumada de alecrim…

Pedro! Pedro! Pedro!
Chico! Chico! Chico!
Nino! Nino! Nino!
Zeca! Zeca! Zeca!
Cadê vocês, homens de Deus?

Eu bem que disse a José!
Não vá José ! não vá José!
Meu Deus!

Com tempo desses não se sai!
Quem vai pro mar, quem vai pro mar,
Não vêm!

Pedro! Pedro! Pedro…
Chico! Chico! Chico…
Nino! Nino! Nino…
Zeca! Zeca! Zeca…

É tão triste ver…
Partir alguém…
Que a gente quer…
Com tanto amor…
E suportar…
A agonia…
De esperar voltar…

Viver olhando o céu e o mar…
A incerteza a torturar… a gente fica só…
Tão só a gente fica só…
Tão só…
É triste esperar…

Uma incelênça…
Entrou no paraíso…

Adeus! irmão Adeus!
Até o dia de Juízo!

Adeus! irmão Adeus!
Até o dia de Juízo…

Minha jangada vai sair pro mar,
Vou trabalhar, meu bem querer,
Se Deus quiser quando eu voltar,
Do mar,
Um peixe bom, eu vou trazer…
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer!

Dorival Caymmi (Salvador, Bahia, 30 de abril de 1914 – Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2008). Foi um cantor, compositor, instrumentista, poeta, pintor e ator brasileiro. E ilustrando mostro o primeiro livro que li quando frequentava a pequena biblioteca do EEPG Dalton Morato Villas Bôas, Ourinhos – SP, cursando a 5ª série lá pelos idos de 1976

Millôr Fernandes: 9 reflexões sem dor

“Quando eu era criança, o futuro ia ser radioso, tudo ia ser limpo, o futuro ia ser feliz, tudo no futuro ia acontecer melhor. Agora, o futuro é a a da bomba, a ameaça da fome, a ameaça da superpopulação e da poluição. E, já não se fazem futuros como antigamente.”

“Um país só tem verdadeira liberdade de expressão quando um homem pode dizer em público, em alto, tudo o que lhe vem à cabeça ao bater com o martelo no dedo.”

“Dividimo-nos orgulhosamente em 60% de analfabetos, 40% de ignorantes e o resto de governantes.”

“É preciso ter coragem. E preciso dar pseudônimos aos bois.”

“Existe coisa mais sóbria do que uma garrafa de uísque?”

“E me desculpem, mas começou o verão: agora eu vou me bronzear ao sol da liberdade.“

“Deus, no sétimo dia, descansou. Aí, choveu paca e não deu praia.”

“Que seria dos economistas se não fosse a extrema miséria do mundo?”

“Viver é desenhar sem borracha.”

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — Rio de Janeiro, 27 de março de 2012). In “Reflexões sem dor”, São Paulo: Edibolso, 1977

Daniel Gisé e pequena parte de seu legado

Daniel Gisé foi quadrinhista, ilustrador e web designer, falecido em 11 de setembro de 2024.

Formado em artes plásticas pela UNESP (2005). Estudou história em quadrinhos no Estúdio Pinheiros (1992-93), desenho e pintura no ateliê do artista Valdir Sarubbi (1996-2000), onde fui seu colega, e história da arte no ateliê de Rubens Matuck (1998). Começou como ilustrador assistente no Studio Gizé de 1996 a 1998. Publicou ilustrações nas revistas Caros amigos, Recreio e Aventuras na história. Colaborou com a revista de histórias em quadrinhos Sociedade radioativa (1999-2008). Criou o site ‘thedoorscomics.com’ (2003) onde publicou histórias em quadrinhos de humor sobre a banda The Doors, sendo publicadas também como revista em formato de bolso em 2007. Em 2007, essas HQ’s foram lançadas em formato de revista de bolso, indicada ao 20º Troféu HQMix. Em 2011 publicou a HQ ‘Desvio’ no livro ‘1001-1’ pela Editora Barba Negra / Leya. Em 2009 até seu falecimento ministrou oficinas de histórias em quadrinhos e deu aulas de desenho.