Mulheres de amigos

Mulheres de amigos destroem a amizade.
No principio ocupam timidamente uma parte do amigo,
aninham-se nele,
aguardam,
observam,
e aparentemente participam do círculo.

Esse pedaço do amigo não nos pertencia –
nada notamos.
Mas logo a coisa muda:
Elas tomam um aposento após o outro,
penetram mais fundo,
logo têm o amigo inteiro.

Ele está mudado: é como se tivesse vergonha de sua amizade.
Assim como antes envergonhava-se do amor diante de nós,
agora envergonha-se da amizade diante do amor.
Não nos pertence mais.
Ela não está entre nós – já o levou.

Ele não é mais nosso amigo:
é o seu marido.
Um leve melindre permanece.
Tristemente o seguimos com os olhos.

A da cama tem sempre razão.

Kurt Tucholsky (Berlim, Alemanha, 9 de janeiro de 1890 – Hindas, perto de Gotemburgo, Suécia, 21 de dezembro de 1935)1890-1935), foi um jornalista, satirista e escritor alemão, poeta e autor de músicas de cabaré. Tradução de Paulo Cesar Souza. Publicado em um suplemento do jornal Folha de S. Paulo em 19 de fevereiro de 1988

Símbolo

Quatro
de quatro 4,
de pé pra cima,
de pé pro chão,
mas sempre 4
na formação.
Quatro de quatro 4,
dos que amam a cidade
de coração,
quer com favelas,
com água ou não.
Quatro de quatro 4,
que a garotada
risca no muro,
risca no chão.
4 do Aluísio,
4 do Rio
quatocentão.

Carlos Marighella (Salvador, Bahia, 5 de dezembro de 1911 – São Paulo, 4 de novembro de 1969), foi um político, escritor e guerrilheiro comunista marxista-leninista brasileiro. Um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar brasileira. In “Poemas – Rondó da liberdade”. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994

Auto da barca do inferno – Trecho

Frade

Deo gratias! Demos caçada!
Pera sempre contra, sus!!
Um fendente! Ora sus!:
Esta é a primeira levada.
Alto! levantai a espada! –
– Metei o diabo na cruz
como o eu agora pus…
– Saí co’a espada rasgada
e que fique anteparada.
Talho largo, e um revés,
e logo colher os pés,
que todo o al nom é nada.
Quando o recolher se tarda
o ferir nom é prudente.
Ora sus! Mui largamente,
cortai na segunda guarda!
– Guarde-me Deus d’espingarda,
mais de homem denodado!
Aqui estou tão bem guardado
como a palha n’albarda.
Saio com meia espada…
Houlá! Guardai as queixadas!

Gil Vicente (Guimarães, Portugal, 1465 – Évora, Portugal, 1536, possivelmente). In “Auto da barca do inferno (Clássicos para o vestibular)”, teatro português. Apresentação e notas de Ivan Teixeira. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996

Para tornar mais claro esse texto faço uso abaixo do trabalho “Auto da barca do inferno – Gil Vicente” feito por um grupo de cinco estudantes do Colégio Presbiteriano Mackenzie São Paulo (Higienópolis), com a participação de meu filho João Alexandre da Silva Matosinho:

Resumo da obra

Por meio da presença de dois barqueiros, o Anjo e o Diabo, eles recebem as almas dos passageiros que passam para o outro mundo. A cena passa-se num porto e portanto, um dos barcos vai em direção ao céu, e outro para o inferno. A maioria dos personagens vão para a barca do inferno. Durante suas vidas não seguiram o caminho de Deus, foram trapaceiros, avarentos, interesseiros e cometeram diversos pecados. Por outro lado, quem seguia os preceitos de Deus e viveu de maneira simples vai para a barca de Deus. São eles: Joane, o parvo, e os quatro cavaleiros. O Auto da barca do inferno é um grande clássico da literatura portuguesa. Ele possui diversas sátiras envolvendo a moralidade. Pelo destino das almas de alguns personagens, a obra satiriza o juízo final do catolicismo, além da sociedade portuguesa do século XVI. A alegoria do juízo final é um recurso utilizado pelo dramaturgo através de seus personagens (diabo e anjo). Além disso, cada personagem possui uma simbologia associada à falsidade, ambição, corrupção, avareza, mentira, hipocrisia etc.

Análise das personagens – Personagens e seus pecados

Diabo: capitão da barca do Inferno.
Anjo: capitão da barca do Céu.
Fidalgo: tirano e representante da nobreza. Teve uma vida voltada para o luxo e vai para o inferno.
Onzeneiro: homem ganancioso, agiota e usurário. Por ter sido um grande avarento na vida ele vai para o inferno.
Joane, o parvo: personagem inocente que teve uma vida simples. Portanto, ele vai para o céu.
Sapateiro: homem trabalhador, mas que roubou e enganou seus clientes. Assim, ele vai para o inferno.
Frade (Destacado no trecho acima): representante da Igreja, que vai para o inferno. Isso porque ele tinha uma amante, Florença, e não seguiu os princípios do catolicismo.
Brígida Vaz: alcoviteira condenada por bruxaria e prostituição que vai para o inferno.
Judeu: personagem que foi recusado pelo Diabo e pelo Anjo por não ser adepto ao Cristianismo. Por fim, ele vai para o inferno.
Corregedor e Procurador: representantes da lei. Ambos vão para o inferno, pois foram acusados de serem manipuladores e utilizarem das leis e da justiça para o bem e interesses pessoais.
Cavaleiros: grupo de quatro homens que lutaram para disseminar o cristianismo em vida e portanto, são absolvidos dos pecados que cometeram e vão para o céu.

A beleza viva

Ordenei, porque o pavio e o azeite se esgotaram
E gelados estão os canais do sangue,
Que o meu coração descontente retire a alegria
Da beleza extraída de um molde
De bronze ou que surja do mármore deslumbrante,
Que surja, mas quando partirmos que parta novamente
Sendo mais indiferente à nossa solidão
Que uma aparição. Ó coração, estamos velhos;
A beleza viva é para os homens mais novos:
Não podemos pagar o seu tributo de tímidas lágrimas.

William Butler Yeats, muitas vezes apenas designado por W.B. Yeats (Sandymount, Dublin, Irlanda, 13 de junho de 1865 — Roquebrune-Cap-Martin, França, 28 de janeiro de 1939). In “Os pássaros brancos e outros poemas”. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira. Lisboa, Portugal: Relógio D’Água Editores, 1993