O silêncio

Antes de existir computador existia tevê
Antes de existir tevê existia luz elétrica
Antes de existir luz elétrica existia bicicleta
Antes de existir bicicleta existia enciclopédia
Antes de existir enciclopédia existia alfabeto
Antes de existir alfabeto existia a voz
Antes de existir a voz existia o silêncio
O silêncio Foi a primeira coisa que existiu
Um silêncio que ninguém ouviu
Astro pelo céu em movimento
E o som do gelo derretendo
O barulho do cabelo em crescimento
E a música do vento
E a matéria em decomposição
Explosão de semente sob o chão
Diamante nascendo do carvão
Homem pedra planta bicho flor
Luz elétrica tevê computador
Batedeira, liquidificador
Vamos ouvir esse silêncio meu amor
Amplificado no amplificador
Do estetoscópio do doutor
No lado esquerdo do peito, esse tambor

Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960). Poema de 2006

Pedem-me um poema

Pedem-me um poema,
um poema que seja inédito,
poema é coisa que se faz vendo,
como imaginar Picasso cego?

Um poema se faz se vendo,
um poema se faz para a vista,
como fazer o poema ditado
sem vê-lo na folha inescrita?

Poema é composição,
mesmo da coisa vivida,
um poema é o que se arruma,
dentro da desarrumada vida.

Por exemplo, é como um rio,
por exemplo, um Capibaribe,
em suas margens domado
para chegar ao Recife.

Onde com o Beberibe,
com o Telini, Jaboatão,
para fazer o Atlântico,
todos se juntam a mão.

Poema é coisa de ver,
é coisa sobre um espaço,
como se vê um Franz Weissman,
como não se ouve um quadrado.

Rio, setembro de 1995

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Living

Champanhe
no máximo pérolas
nada que ameace a tua nudez
nem os vidros que revelam
em claro, a noite.

Acesas
a luz, as flores no vaso
acusam a cor que vai doer
sem poder dormir
até que se debruce e desmaie
e o traço do perfume
seja mais lembrado que sentido.


com a imaginação
e os elementos da paisagem
que te elaboram, por escrito:
leque de céus que o dia
vai abrindo, nuvem de montanhas
viva e esferográfica lagoa
sem nada de mar
que não chegou ainda
para salgar e molhar
com outra água
a boca de água doce.

28.2.1998

Armando Freitas Filho (Rio de Janeiro, 1940 – 2024). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Noite encantada

Na Páscoa Solidária da Bibli-Aspa & Cacau Show passada com as crianças residentes em ocupações da Avenida Rio Branco e da Aclimação em companhia com os tradicionais coelhinhos e os 40 motociclistas do grupo “Insanos”.

Fotos: Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte)

📷 Fotógrafo de Rua, retratos e fotodocumentário
📔 Escritor, dramaturgo e professor de História
Autor do Livro: Pequenas Cotidianeidades

Estética da recepção

Turris eburnea.

Que o poeta brutalista é o espeto do cão.
Seu lar esburacado na lapa abrupta.
Acolá ele vira onça e cutuca o mundo com vara curta.
O mundo de dura crosta é de natural mudo,
e o poeta é o anjo da guarda do santo do pau-oco.
Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada, mija em leque no ururu, malocado na cruz da encruzilhada. Cachaça para capotar e enrascar-se em palpos de aranha. Ó mundo
de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas, serpes, serpentes,
já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre, carrega antenas de gafanhoto mas
não posa de profeta:
“Ó voz clamando no deserto”.
Pois eu, pitonista, falo que ele não permite que sua pele crie calo
dado que o mundo é de áspera epiderme
como a casca rugosa de um fero rinoceronte
ou de um extrapoemático elefante
posto que
nas entranhas do poema os estofos do elefante ainda são sedas e delicadezas e carências de humano paquiderme. É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco.
Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco.
Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez como um faquir que come sua própria fome e, sem embargo, destituído
quiçá do usucapião e usufruto do tino com a debandada de qualquer noção de impresso
prazo de jejum. Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez.
Sem fanfarras, o vazio não carece delas.

Waly Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 – Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999