Onde estive?

Andei esquecida da morte
anos e anos
numa graça de amor
numa harmonia de fontes cantar
e que mais canta

Andei esquecida da morte
dias e noites
— o tempo mais não é que sol e sombra

Andei esquecida da morte
— o coração tornado nova estrela

Andei a viver!

Merícia de Lemos (Beira, Moçambique, 24 de abril de 1918 – Paris, França, 1996), In “Tangentes”. Comenta Carlos Mendonça Lopes, do site “Vicio da poesia”: A obra de Merícia de Lemos (1913-1996 (?)) é uma obra poética decantada de excessos retóricos onde por vezes o verso cintila, e poemas há que são uma absoluta revelação do eu pela palavra

Corações a mil

Minhas ambições são dez
Dez corações de uma vez
Pra eu poder me apaixonar
Dez vezes a cada dia
Setenta a cada semana
Trezentas a cada mês
Isso sem considerar
A provável rebeldia
De um desses corações gamar
Muitas vezes num só dia
Ou todos eles de uma vez
Todos dez desatarem a registrar
Toda gente fina
Toda perna grossa
Todo gato
Toda gata
Toda coisa linda
Que passar
Meus dez mil corações a mil
Nem todo Brasil vai dar

Gilberto Gil (Salvador, Bahia, 26 de junho de 1942). Essa canção, lançada em 1980, ficou muito conhecida na voz da cantora Marina Lima (Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1955) e também ganhou uma gravação clássica do próprio Gil em 1981

Un coup de dés jamais n’abolira le hasard

Layout autógrafo (1897): Manuscrito de poema do francês Mallarmé é vendido por R$ 4,1 milhões.
Esse manuscrito acima e autografado do famoso poema tipográfico “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”, de Stéphane Mallarmé, foi vendido por € 963 mil (R$ 4,1 milhões) no leilão da biblioteca do poeta francês organizada pela casa Sotheby’s de Paris.
O manuscrito, estimado entre € 500 mil e € 800 mil, foi comprado pelo colecionador francês Marcel Brient. O poema foi redigido por Mallarmé (1842-1898) no início de 1897 para ser impresso pelo comerciante de arte e editor Ambroise Vollard.

“Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”, que em português seria algo como “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, é o título do primeiro poema tipográfico de que se tem notícia, ou seja, um poema que explora as possibilidades da tecnologia de impressão de textos, publicado em 1897 na revista “Cosmopolis” pelo poeta simbolista Stéphane Mallarmé (Paris, França, 18 de março de 1842 – Valvins, comuna de Vulaines-sur-Seine, Seine-et-Marne, França, 9 de setembro de 1898).
A respeito da estrutura do poema, o poeta não considerava mais que as linhas que o compunham pudessem ser consideradas como verso, chamando-as de “subdivisões prismáticas”. Formando “ilhas de significação” e “brancos”, o poema aproveita o espaço da página para indicar o ritmo da leitura e as pausas.
A poesia tipográfica de Mallarmé deu origem a várias experiências do tipo, praticadas pelos futuristas no início do século XX, dando impulso à nova poesia da chamada por alguns de “segunda vanguarda”, os movimentos surgidos a partir da década de 1950, relacionados, principalmente, à visualidade da obra poética.
Em dezembro de 1896, Ambroise Vollard oferece a Mallarmé a oportunidade de publicar um “livro de arte”, o que nunca ocorreu.
Foi traduzido em português pelo poeta Haroldo de Campos, utilizando recursos visuais semelhantes aos do poema original.

Ambroise Vollard (Saint-Denis de La Réunion, comuna e subúrbio ao norte de Paris, França – 3 de julho de 1866 – Versalhes , França, 21 de julho de 1939) foi um negociante de arte francês considerado um dos mais importantes negociantes de arte contemporânea francesa do início do século XX. Ele é reconhecido como um grande apoiador e defensor dos artistas contemporâneos de seu período, proporcionando visibilidade e apoio emocional a inúmeros artistas então desconhecidos, incluindo Paul Cézanne , Aristide Maillol , Pierre-Auguste Renoir , Louis Valtat , Pablo Picasso , André Derain , Georges Rouault , Paul Gauguin e Vincent van Gogh.
Vollard nasceu na ilha Réunion, um território ultramarino francês localizado próximo a Madagascar. Em pouco tempo ele ascende como colecionador e marchand, por sua grande visão e pelo momento propício, com Manet (1832-1883) a preços pouco elevados e Renoir (1841-1919), Cézanne (1839-1906) e Degas (1834-1917) ainda rejeitados ou quase desconhecidos. Em 1893, Vollard abre uma pequena galeria na rue Laffitte, conhecida como rue des tableaux (rua dos quadros), onde os três artistas, então já seus amigos, iriam desfrutar de jantares em sua companhia, na adega de seu estabelecimento. Rapidamente ele se coloca em posição de destaque no ambiente artístico da época. Sua galeria se torna o centro de convergência dos jovens artistas dedicados a desenvolver os controvertidos movimentos artísticos que hoje conhecemos como modernos.
Quando é posto à venda, em 1894, o acervo da pequena galeria que Père Tanguy, fornecedor de tintas de Van Gogh (1853 -1890) e dos impressionistas, mantinha junto à sua loja, Vollard compra quatro quadros de Cézanne, um Van Gogh e um Gauguin (1848 – 1903) a bons preços. Nesse ano realiza a primeira exposição na rue Laffitte, composta por um conjunto de desenhos de Manet, e passa a conhecer Berthe Morisot (1841 – 1895), Monet (1840 – 1926) e outros artistas do mesmo círculo. Em 1895, organiza a primeira exposição de Cézanne, pintor que sempre permaneceu como seu preferido. Mantém constante relação com os impressionistas Degas e Renoir, com Gauguin, com os nabis Bonnard (1867-1947), Denis (1870 – 1943) e Roussel (1867 – 1944), e também com Redon (1840 – 1916) e Forain (1852 – 1931).
Unindo um senso aguçado para as artes com uma grande aptidão comercial, Vollard cresce rapidamente em conceito com grandes colecionadores, como Camondo e Stschoukine. Alguns pintores, como Gauguin, reclamavam da avareza de Vollard, que costumeiramente impunha suas próprias condições de negociação. Em 1901, na mesma galeria onde Vollard expõe Redon e Van Gogh, em sua primeira exposição de fato, o jovem Pablo Picasso (1881 – 1973) tem a oportunidade de expor pela primeira vez em Paris. Embora não fazendo muito sucesso, ele terá o apoio do marchand, que mais tarde irá publicar uma de suas mais respeitadas obras gráficas, a Suite Vollard.
Surgem nesse momento publicações ilustradas que dão outra dimensão ao relacionamento entre texto e imagem, como Pleïade, Decadent, Vogue, Plume, Mercure de France, L’Estampe originale que, em 1893 ganhou uma litogravura colorida de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) na capa de sua primeira edição (figura ao lado), e La Revue Blanche (figura abaixo), revista literária e artística para a qual Pierre Bonnard, em 1894, contribuiu também com uma litografia colorida para a capa. Esse novo encontro dos artistas com as publicações se dá, não coincidentemente, no momento em que a fotografia inicia seu percurso inexorável em direção às páginas das publicações.
O desenvolvimento de técnicas de impressão de imagens fotográficas como a Zincografia e, em 1872, a impressão baseada em xilografia de topo, contribuem para uma reinterpretação dos métodos tradicionais. Frantz Calot escreve em seu L’art du livre en France : des origines à nos jours (1931) sobre essa reinterpretação das técnicas tradicionais de gravura: “C’est le contraire de la prétendue gravure qui s’ingénie à maquiller, à masquer le travail du graveur, qui l’amène a ressembler à la simple reproduction photographique. La mécanique suffit pour ce beau résultat…” (Isto é o contrário da gravura que pretensamente se esforça para disfarçar, para mascarar o trabalho do gravador, que conduz a um simples olhar para uma reprodução fotográfica. É a mecânica suficiente para este belo resultado…).
A ideia de convidar pintores a imprimirem litogravuras para publicação não é novidade, já em 1862 Cadart, um editor da geração precedente e co-fundador, com Bracquemond (1833 – 1914), da Sociedade de Água-Fortistas, havia encomendado litogravuras a Manet (1832 – 1883), Legros (1837 – 1911), Fantin-Latour (1836 – 1904), Ribot (1823 – 1891) e Bracquemond. Por não ter gostado do resultado decidiu não imprimi-las, mas a partir dessa experiência Fantin-Latour continuou praticando e, eventualmente, se juntaram a ele Manet, Whistler (1834 – 1903), Degas, Pissarro (1830 – 1903) e, principalmente, a partir de 1879, Redon (1840 – 1916). Fantin-Latour e Redon criaram a Sociedade dos Litógrafos Franceses, e fizeram sua primeira exposição em 1891.

Fonte: Ambroise Vollard, por Cláudio Jansen Ferreira (2012)

Inverno 4

Choveu tanto sobre o teu peito
que as flores não podem estar vivas
e os passos perderam a força
de buscar estradas antigas.

Em muita noite houve esperanças
abrindo as asas sobre as ondas.
Mas o vento era tão terrível!
Mas as águas eram tão longas!

Pode ser que o sol se levante
sobre as tuas mãos sem vontade
e encontres as coisas perdidas
na sombra em que as abandonaste.

Mas quem virá com as mãos brilhantes
trazendo o seu beijo e o teu nome,
para que saibas que és tu mesmo,
e reconheças o teu sonho?

A primavera foi tão clara
que se viram novas estrelas,
e soaram no cristal dos mares
lábios azuis de outras sereias.

Vieram, por ti, músicas límpidas,
trançando sons de ouro e de seda.
Mas teus ouvidos noutro mundo
desalteravam sua sede.

Cresceram prados ondulantes
e o céu desenhou novos sonhos,
e houve muitas alegorias
navegando entre Deus e os homens.

Mas tu estavas de olhos fechados
prendendo o tempo em teu sorriso.
E em tua vida a primavera
não pôde achar nenhum motivo…

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964). In “Viagem”, 1938. Postado por Maria Madalena Schuck

Outras memórias – Valdir Sarubbi

Outras memórias – Valdir Sarubbi
Memoriae: Cristais de areia, 1992 – Pintura (acrílica sobre tela), 1,30 x 1,50m

Exposição Individual: De 5 a 29 de agosto de 1998 – Museu do Estado do Pará
Palácio Lauro Sodré – Praça D. Pedro II, s/n – Cidade Velha
CEP: 66020-240 – Belém – Pará – Fone: 225-3853

Sarubbi,
Do antigo Chalé de Ferro (Escola de Arquitetura), nos anos 60, onde cruzamos os passos iniciais do nosso afeto, passando pelas primeiras peripécias nas artes plásticas que nos levou, juntos, para a pré-bienal de 1970, em São Paulo, a criação do roteiro de um filme sobre o Círio que nunca foi filmado, ao último encontro num quarto de hotel, ouvindo os gemidos e lamúrias do nosso querido Didi, desconjuntado, quantos caminhos…
O velho Chalé foi desmontado e remontado em outro cenário, bem mais bonito, mas desalmado.
O filme foi rebobinado para as calendas das doces recordações. E o pretensioso aprendiz de artista plástico transformado em servidor público, aliás, com muito orgulho.
Permaneceu a admiração pelo teu talento. Um triunfo artístico sempre crescente que este teu amigo aproveita para pedir, por ter sido cúmplice e fiel torcedor, que o acolhas, cativo, nas tuas vitórias.
De resto, a honra de, por minhas mãos, redimir o Governo do Pará que nunca te fez a justa e merecida homenagem.
Fraternalmente,
Paulo Chaves Fernandes – Secretário de Estado da Cultura

Governo do Estado Do Pará
Almir Gabriel
Secretaria de Estado da Cultura
Paulo Chaves Fernandes
Museu do Estado Do Pará
Rosângela Brito

Montagem da exposição
Equipe técnica do MEP
Produção gráfica
Coordenação: Núcleo Editorial/ Secult

Projeto gráfico: Luciano Oliveira
Fotos: Luigi Stavale
Editoração eletrônica e fotolitos: Omni Graphics
Impressão: Cartopacck

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi – acervo família Sarubbi – edição póstuma