Escrever-se do interior a palavra
satisfação.
Processos que decantam no corpo. Estamos
na primeira manhã do mundo. O frio é tétrico
e os dedos, que são de água,
produzem vales profundos
na pele cheia de fogo da terra. Os elementos
ainda não estão separados, nem as cores.
Nesse quadro primacial de inocência
o sol desperta a criação. Os olhos berram.
Os erros tornam-se evidentes, os choques
inevitáveis porque existem contornos.
Só agora se definem figuras
na trama lenta da qual resultam zonas
de luz e sombra. O espaço
antes nubloso e equalizado se comporta em fatias
feitas.
Leonardo Fróes (Itaperuna, Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 1941 – Petrópolis, Rio de Janeiro, 21 de novembro de 2025). Poeta, tradutor, jornalista, naturalista e crítico literário brasileiro, recebeu, em 1995, o Prêmio Jabuti de Poesia com o livro “Argumentos invisíveis”. Traduziu para o português obras de William Faulkner, Malcolm Lowry, D. H. Lawrence, Tagore, George Eliot, Lawrence Ferlinghetti, etc. Desde a década de 1970 recolheu-se em Petrópolis, região serrana do Rio, onde morou em um sítio com a esposa e filhos e dedicando-se ao cultivo da terra, à poesia e à tradução