… poesias, a poesia é
— é como a boca
dos ventos
na harpa
nuvem
a comer na árvore
vazia que
desfolha noite
raiz entrando
em orvalhos…
os silêncios sem poro
floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca
cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém
o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros
— e é livre
como um rumo
nem desconfiado…
raiz entrando em orvalhos..
os silêncios sem poro
floresta que oculta quem aparece
como quem fala desaparece na boca
cigarra que estoura o crepúsculo
que a contém
o beijo dos rios aberto nos campos espalmando em álacres os pássaros
— e é livre
como um rumo
como um rumo nem desconfiado…
Manoel de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 19 de dezembro de 1916 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 13 de novembro de 2014). In “Compêndio para uso dos pássaros”, 3ª. edição, Rio de Janeiro: Record, 1999