Mero homem

Há um senhor,
Um qualquer.
Macho bom,
mas suas palavras?

Há um homem que preoCUpa.
Um homem, há sim, que se preocupa,
Há um homem que se preo pa cú.
Mera afirmação. Não!

Ele o venera, limpa-o, observa-o,
realiza-se por ele.
Ele o respeita.
Até toma banho com ele!

Ele o sente como um órgão,
não apenas caga-o.
Ele se preocupa com a vida.
Não apenas limpa-o.

E olha que é um homem,
família conhecida e respeitada.
Vô e tio fazendeirocafeicultordobom.
É mesmo: Vila Cordelamma está regredindo.

Na verdade deveria usar “atualizando-se”,
mas não fica bem para a moral,
dos cafeicultoresdobom e nem pro povão.
Afinal estamos em terra certa, sertã.

Este homem come co’a boca.
Delegado, diz à repórter, disso:
De homem para mulher, mulher pra vizinha,
Vizinha pra papagaio, curió, gato, cabrito, janela.

O homem sai na rua
com seu terno de coronel branco.
Sobe no coreto, diz:
Gosto!… É preso.

Preso, diz: Pago cafeicultordollarmentemente bem!
Sai. Sai às ruas de terno e rosa no peito,
Caminha vulneravelmente.
O povo lhe lincha.

Persegue-o pelos buracos das ruas asfaltodeenxada.
Inchados de morros e atolados de valas.
Ele cai numa poça com a bunda pra cima.
O povo pula em cima.

Espancacetampaabocaebate-o.
Ele diz um “ai” de suspiro.
Seu terno mancha de sanguebarro.
Ele morre afogado na poça.

O chefe dos revoltadores, linchadores,
ergue-se ao coreto e fala em voz alta.
(O povo o observa com respeitemor).
Diz: Matamos o homem errado pois também gosto.

21/08/80 – S.P.

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *