O descascador de canela

Se eu fosse um descascador de canela,
eu cavalgaria na sua cama
e deixaria o pó amarelo da casca
no seu travesseiro.

Seus seios e ombros exalariam um odor fétido,
você jamais conseguiria atravessar um mercado
sem sentir o toque dos meus dedos
sobre você. Os cegos
tropeçariam, certos de quem se aproximavam,
mesmo que você pudesse se banhar
sob as sarjetas, durante a monção.

Aqui, na parte superior da coxa
, nesta pastagem lisa
perto do seu cabelo
ou da dobra
que corta suas costas. Neste tornozelo.
Você será conhecida entre estranhos
como a esposa do descascador de canela.

Eu mal podia olhar para você
antes do casamento,
muito menos tocá-la
— sua mãe de nariz aguçado, seus irmãos rudes.
Enterrei minhas mãos
em açafrão, as disfarcei
com alcatrão fumegante,
ajudei os apicultores…

Quando nadamos uma vez,
eu te toquei na água
e nossos corpos permaneceram livres,
você podia me abraçar e ficar insensível ao cheiro.
Você subiu na margem e disse

                    É assim que se toca em outras mulheres:
a esposa do cortador de grama, a filha do calcário.
E você procurou em seus braços
o perfume que faltava.

                                      e sabia

                  De que adianta
ser filha do queimador de cal,
deixada sem deixar rastro,
como se não tivesse sido amada em um ato de amor,
como se estivesse ferida sem o prazer de uma cicatriz?

Você encostou
sua barriga nas minhas mãos
no ar seco e disse: “
Sou a
esposa do descascador de canela. Cheire-me.”

Michael Ondaatje (Colombo, Sri Lanka, então Ceilão, 12 de setembro de 1943). Residente em Toronto, Canadá, esse poeta e romancista, de ascendência holandesa, tâmil e cingalesa, mudou-se com a mãe para a Inglaterra em 1954 e, posteriormente, em 1962, para o Canadá, onde se tornou cidadão canadense. Ele é mundialmente famoso pelo romance “O paciente inglês”. Como poeta, possui obras aclamadas como esta acima, onde mistura memórias, história e ritmo em sua escrita. In “The cinnamon peeler: Selected poems”. Nova York: Knopf, 1991

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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