Três poemas: Homens, bebericando e Autoretrato

Homens

nas catacumbas; nascendo
nas catacumbas; vivendo
nas catacumbas; amando
nas catacumbas; morrendo
nas catacumbas.

Silhuetas de róseo esmalte
e imbecis governamentais
bebericando
café,
café com açúcar;
café com sangue,
sangue

//

bebericando

como se fossem donos
da vida,
como se fossem donos
do tempo,
como se fossem donos

do sangue.

//

Autoretrato

Certa vez, numa aventura estranha,
fugi
dos estreitos horários em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.

Poemas do livro “Singular plural”, Editora Record, 1998.

Moacyr Félix (Rio de Janeiro, 11 de março de 1926 – 25 de outubro de 2005) foi poeta, jornalista, advogado e editor, e um dos mais participativos poetas de sua geração, sendo responsável pela divulgação de grande nomes da literatura brasileira, através de seções e colunas que assinava para jornais e revistas da época. Como intelectual e ativista, foi um dos fundadores do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), que reuniu pensadores de todas as áreas das artes, da literatura, da ciência e das profissões liberais. Entre 1956 e 1958, foi o responsável pela seção de poesia do jornal “Para todos”, publicado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e que era dirigido por Jorge Amado e Oscar Niemeyer, tendo como redator-chefe Moacyr Werneck de Castro. Como poeta, ele escreveu mais de 10 livros, sempre apresentando versos combativos, discursivos, longos e persuasivos. Usava da fenomenologia para aprofundar os temas, principalmente baseados em estudos sobre os filósofos Maurice Merleau-Ponty e Gastón Bachelard. Com seu livro “Escombros” (Editora Bertrand Brasil) ele foi um dos vencedores do 42º Prêmio Jabuti (ano 2000) na categoria Poesia, juntamente com Thiago de Mello (Campo de milagres) e Ferreira Gullar (Muitas vozes), numa edição sem divisão em primeiro, segundo e terceiro lugares no pódio final

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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