Brisa marinha de Mallarmé em duas traduções e no original, em francês

Brisa marinha (Tradução de Herculano de Carvalho)

A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.

Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

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Brisa marinha (Tradução de José Augusto Seabra)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

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Brise marine

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!.

Stéphane Mallarmé (Paris, França, 18 de março de 1842 – Valvins, comuna de Vulaines-sur-Seine, Seine-et-Marne, França, 9 de setembro de 1898) foi um poeta, crítico de arte e ensaísta francês, muito famoso por defender o movimento simbolista e por ser o primeiro amigo e biógrafo do pintor Paul Gauguin (Paris, França, 7 de junho de 1848 – Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa, 8 de maio de 1903), que não era escritor de versos ou poemas, mas sim um célebre pintor pós-impressionista francês. Remetendo ao termo “poesia” na vasta obra de Gauguin temos a sua famosa tela de 1896 produzida no Taiti que se chama “Poemas bárbaros” (Poèmes barbares), retratando duas mulheres taitianas ao lado de um ídolo místico e combinando elementos do folclore taitiano, melancolia e referências visuais primitivas em um arranjo altamente simbólico. Atualmente esse quadro encontra-se exposto no Fogg Museum (Harvard Art Museums), em Cambridge, Massachusetts (EUA). Esse pintor expressava sua visão poética por meio de cores intensas, formas simplificadas e cenários exóticos da Polinésia Francesa, e não com palavras rimadas. Ele manteve forte diálogo criativo com literatos simbolistas de sua época, como Stéphane Mallarmé e Charles Morice.

“Às vezes, na sobrecarga dos dias invade-nos um desejo imenso de evasão, uma vontade de partir, em que apenas o mar é consolação.
É do que nos fala este poema de Stéphane Mallarmé, “Brisa marinha”, para o qual vos deixo duas versões em português, ambas satisfatórias mas sem a música desolada que se ouve no original, o qual acrescento para os leitores fluentes em francês.

A pintura de Paul Gauguin a acompanhar explica-se pela biografia do pintor, aquele que definitivamente partiu, deixando tudo, em busca do paraíso.”

Carlos Mendonça Lopes, do blog “Vicio da poesia”

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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