Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.
Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
“Agora és livre, se ainda recordas”
Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964). In “Solombra”, Editora Livros de Portugal. No ano de meu nascimento e da partida dessa incrível poetisa o livro “Solombra” venceu o 6º Prêmio Jabuti (realizado em 1964), sendo premiado na categoria “Poesia”. Este foi o último livro de poesia dela, publicado em 1963. A obra reúne 28 poemas marcados por temas como a morte, a solidão, a memória e a passagem do tempo