Quem vive ali: Microcontos cotidianos de Bubu Bopp

APARTAMENTO 40

Ela gosta desse horário do dia, porque é quando o sol consegue driblar o prédio da frente e invadir o seu apartamento. Ele atravessa a janela e clareia tudo: o vaso com as flores que comprou na feira, o chão de tacos pelo qual seu apaixonou, os quadros que ainda precisa pendurar na parede.

Senta, fecha os olhos e deixa a luz esquentar seu rosto. Puxa o ar com força e solta devagar. Faz isso algumas vezes. Sente o rosto formigar. Canta baixinho uma música que está na cabeça desde ontem à noite. Abre os olhos e, sem precisar levantar, alcança na mesa uma mexerica na fruteira. Começa a descascá-la.

O cheiro da fruta tem gosto de infância. Pega um gomo e sente o sabor se esparramar pela boca. É como se estivesse de novo na rua, correndo, sem medo. Quer aproveitar o que resta do dia antes que a mãe a chame para o jantar. Quase consegue ouvir a sua respiração de menina, o barulho dos vizinhos, a poeira que sobe do asfalto quente.

Poucas pessoas têm o dom de imaginar. Sorri. Fica feliz com a visita daquela Mariana, que apareceu para lembrá-la que ela sempre soube enxergar coisas bonitas nas situações mais simples da vida. É daí que vem a sua força. O sol volta a se esconder atrás do prédio vizinho, mas ela já não precisa dele para entender o tamanho da sua luz.

Levanta e caminha até a estante da sala. Pega um dos livros que deixou para trás nesses tantos dias de quarentena. Quem sabe hoje seja o dia para retomar aquela história, na companhia agridoce daquele fim de tarde cheirando a fruta cítrica.

Bubu Bopp

“Aiai, a Bopp que faltava.
Dos 3, Bubu sempre foi a mais social e a menos rede. Incentivadora feroz de todos nossos textos e iluminando ideias com um “e se você…”, Bubu agora tem um projeto autoral. @quemviveali são microcontos lindos e delicados sobre dias de distanciamento e de abrir janelas internas. Os afetos dela se reconhecem nas linhas e entrelinhas. Sigam lá ❤️”

Bettina Bopp

Leia mais: www.instagram.com/quemviveali

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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