Ninguém esgota o azul e seus mistérios
Murilo Mendes
Volto ao azul.
Regresso ao não buscado,
Ao nunca visto,
Sequer jamais sonhado.
Volto ao azul,
Ao derradeiro anseio
Do esperado,
Navegante a navegar
No rumo dos contrários.
As ilhas, sempre as ilhas…
E o ignorado porto,
Desfeito, arremessado,
Pelas marés do tempo
Ao enigma do outro lado.
Volto ao azul.
No abismo da memória
Invento os passos
Da criança que fui,
Outrora, em alguma parte.
Perto era o mar e em volta
O escuro… E meu cansaço.
Por que não me tomavam
Ao colo e me afagavam?
Por que não escutavam
Aquela voz que se perdia
Num choro que implorava?
Perto era o mar…
E o mar sempre será
Minha rota
E meu naufrágio,
Meu destino de pássaro,
Gaivota a mergulhar
Em busca do improvável
Porto onde nasci
E onde plantei a infância
E algumas mágoas,
Quando perto era o mar
E ao marulho das ondas
A noite se fechava
Como ostra na concha.
Volto ao azul…
À linha de arrecifes,
Que separa o perau
Das águas calmas.
Na transparência
Sem fim avisto o peixe
Que rápido se afasta,
Um delfim encantado,
Sereno a desenhar
Na opulência das vagas
A linha que o define,
Do vermelho encarnado
Às escamas prateadas,
O peixe,
Apenas um detalhe.
Myriam Fraga (Salvador, Bahia, 9 de novembro de 1937 – Salvador, Bahia, 15 de fevereiro de 2016). Abril, 2013