Raízes

Como gatos ao sol

Sombrio abismo ondulante
labirinto invertido

Dão para o desconhecido
dialogam subterraneamente de planta a planta
(também eu tenho duas plantas de bípede
mas que nem sempre se compreendem
sou membro de uma espécie alucinada e predadora)

Raízes que por vezes afloram a superfície da pedra
serpenteando

Da terra retiram o mar desaguado

Podem matar ou libertar
matar ou curar

A tua infância são as tuas raízes
elas alimentam os sonhos
quando dormes elas falam

A meio da minha vida descalcei-me e sentei
debaixo de uma árvore em cima de suas raízes
e me alimentei da sua seiva
Budha quase me despertava.

(Coimbra, jardim Botânico).

*

Escadas que dão para o céu
(ou seja para nenhures)
Ao lado na igreja da Misericórdia
latejam os sinos sinalando um funeral
E eu só queria um sinal do teu coração
(que o telefone tocasse agora
então acreditaria em auroras).
(Idanha-a-Nova, final de tarde)

*

Em lince me transformo e corro
para te anunciar que
Hoje o Sol abriu a pálpebra
rente ao chão
nas folhas do choupo
e só depois se ergueu até aos ramos
mais altos onde vai fazer ninho.

*

Manuel Silva-Terra (Orvalho, Freguesia Oleiros, Portugal, 18 de maio de 1955)

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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