Como gatos ao sol
Sombrio abismo ondulante
labirinto invertido
Dão para o desconhecido
dialogam subterraneamente de planta a planta
(também eu tenho duas plantas de bípede
mas que nem sempre se compreendem
sou membro de uma espécie alucinada e predadora)
Raízes que por vezes afloram a superfície da pedra
serpenteando
Da terra retiram o mar desaguado
Podem matar ou libertar
matar ou curar
A tua infância são as tuas raízes
elas alimentam os sonhos
quando dormes elas falam
A meio da minha vida descalcei-me e sentei
debaixo de uma árvore em cima de suas raízes
e me alimentei da sua seiva
Budha quase me despertava.
(Coimbra, jardim Botânico).
*
Escadas que dão para o céu
(ou seja para nenhures)
Ao lado na igreja da Misericórdia
latejam os sinos sinalando um funeral
E eu só queria um sinal do teu coração
(que o telefone tocasse agora
então acreditaria em auroras).
(Idanha-a-Nova, final de tarde)
*
Em lince me transformo e corro
para te anunciar que
Hoje o Sol abriu a pálpebra
rente ao chão
nas folhas do choupo
e só depois se ergueu até aos ramos
mais altos onde vai fazer ninho.
*
Manuel Silva-Terra (Orvalho, Freguesia Oleiros, Portugal, 18 de maio de 1955)