No entardecer dos dias de Verão
No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…
Ah, os sentidos, os doentes que veem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão…
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos…
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir…
Alberto Caeiro, in “O guardador de rebanhos”, heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935)
Poema postado no Facebook pela prima Mariangela Devienne Ferreira
Flores se abrindo
Eu faço versos
Eu faço versos
Como quem chora
De desalento
De desencanto
Fecho o meu livro
Se por agora
Não tens motivo
Nenhum de pranto
Meu verso é sangue
Volúpia ardente
Tristeza esparsa
Remorso vão
Dói-me nas veias
Amargo e quente
Cai gota
A gota
Do coração
E nestes versos
De angústia rouca
Assim dos lábios
A vida corre
Deixando um acre
Sabor na boca
Eu faço versos
Como quem morre
Wally Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 — Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)
Adereço de carnaval
Novíssimo Prometeu
Eu quis acender o espírito da vida,
Quis refundir meu próprio molde,
Quis conhecer a verdade dos seres, dos elementos,
Me rebelei contra Deus,
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho,
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas dimensões:
Então o ditador do mundo
Mandou me prender no Pão de Açúcar;
vêm esquadrilhas de aviões
Bicar o meu fígado
Vomito bílis em quantidade,
Contemplo lá embaixo as filhas do mar
vestidas de maillot, cantando sambas,
Vejo as madrugadas, as tardes nascerem
– Pureza e simplicidade da vida! –
Mas não posso pedir perdão.
Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975)
Despertar
Paisagem nº. 1
Minha Londres das neblinas finas!
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio…
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas…
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!…
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralálá… A guarda-cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste…
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento…
Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca…
Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945). In “Paulicéia desvairada”
De “Estórias Paralelas” – Valdir Sarubbi
Selecionei um trecho de um conto chamado “Os Dias vazios”, escrito pelo artista paraense Valdir Sarubbi, que foi meu saudoso professor de pintura. Ele era um leitor muito dedicado e um profundo conhecedor de literatura. Na última fase de sua vida ele se empenhou em escrever memórias e contos. Neste trecho o personagem fala sobre sua amizade com o amigo poeta e de como ele era.
“Falava de minha vontade de ir morar em Belém e fugir daquela vida monótona à beira do rio Caeté. Mas o que eu queria fazer? No fundo, não imaginava. Eu era um insatisfeito que sabia fingir muito bem que estava satisfeito com tudo. Quem me visse sorrindo nas rodas de amigos ou nas reuniões de família mal podia imaginar o que me passava pela alma. E que eu não podia nem falar para meu melhor amigo, o poeta que se sentava comigo na Praça da Intendência.
Quando ele declamava naquelas noites de lua, ficava olhando seu rosto levemente iluminado pelo luar. Era um rosto expressivo mostrando a emoção que suas palavras transpareciam. Seus poemas falavam de amor, de saudade, da beleza da vida entremeada com a tristeza da morte. O poeta falava da vida, mas também vivia tão pouco quanto eu.
As moças gostavam de ouvir seus sonetos. Faziam roda e ele declamava cheio de ardor. Havia sempre uma ou outra lágrima nos olhos de alguma delas. E quando percebia, matizava os versos com sua linda voz. Era aplaudido. Mas nesses momentos era como se algo acontecesse com ele. Ficava calado, punha as mãos nos bolsos e lançava olhares desesperados em volta. E se alguma das moças se aproximava para conversar, saia de mansinho, se afastando para longe dali.”
Estórias paralelas, 1999, 140 páginas

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)
Agman Duarte: Festa no quilombo, Brincadeira no pé de cacau e Pé de moleque
Agman Duarte Benvindo (@agmandesignarte) é designer de produto e escultor de Brasília, reside no extremo sul da Bahia (Prado) onde tem um ateliê. Estudou na Universidade de Brasília. Escultor especialista em madeira e tinta acrílica.
“Sou brasiliense, me formei em design de produto na Universidade de Brasília. A arte sempre esteve presente na minha vida. Com o pai pintor e escultor (Agadman), a mãe professora de artes e a mais rica educação artística que isso poderia resultar, nunca tive dúvidas que seria um criador.”
Agman Duarte
Comenta sobre seu pai (Agadman) dizendo que “Ele nasceu no Piauí, mas foi criança para Brasília, mais tarde foi para o Rio de Janeiro onde conheceu Burle Marx. No centro oeste expôs com Poteiro, Siron Franco e Galeno… E finalmente veio para o sul da Bahia onde construiu seu ateliê – que é um trabalho artístico em si… Sempre viveu de arte e desenvolveu sua própria linguagem em diversas técnicas como desenho, escultura e entalhe em madeira sendo a pintura sua paixão e principal foco.”
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