Feito em parceria com a minha afilhada Maria do Carmo Matosinho Peres de Pontes
Autor: ematosinho
Chartres
Dos cento e setenta vitrais da catedral
restam cento e cinquenta e dois. Mais
de dois mil metros quadrados de cor e luz,
que vestem, ao crepúsculo, as almas que ali vão orar,
banhando-as no orvalho de pinturas sem carne.
Ateus (próximos da velhice), para quem
as grandes perguntas ficaram sem resposta,
sentem vacilar as pernas. Sim, a vida, segundo eles,
deve ser aceita e vivida em sua imediatez.
Os ignorantes não compreendem por que tantos operários
(de tão variadas nacionalidades) esqueceram
os próprios nomes. Um único registrou o seu,
em Rouen. Teria sido Clemente
de todos o mais infeliz?
Armindo Trevisan (Santa Maria, Rio Grande do Sul, 6 de setembro de 1933). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999
Cena com a família de Edna Vieira de Carvalho
Sobre esse expressivo quadro, comenta a amiga Edna Vieira de Carvalho: “Essa obra foi feita e me presenteada pelo meu saudoso irmão, Luiz Antônio Vieira de Carvalho, em 5/4/1982. Nosso pai, Pedro Vieira de Carvalho, falecera em 26/1/1982. Só consegui chegar ao Brasil em 28/1, ainda a tempo de me despedir de meu pai, no crematório da Vila Alpina. Essa tela é muito especial porque o Luiz não a copiou de uma foto, mas se baseou em suas lembranças do cotidiano da família quando nos visitava, pois morava em São Carlos: Papai, em sua cadeira de rodas (diabético, perdera a perna por ter ajudado no restauro do vagão quando se acidentou com soda cáustica infeccionando os dedos), seus filhos, a Alecsandra – com seu cachorrinho, o Luís Alberto – com sua bola de futebol, a Adair – ajudante da casa, ao fundo, na cozinha, abrindo ou fechando a geladeira)…. Você, Eduardo, adolescente, conheceu bem o papai, lembro que conversavam muito…”
Bárbara Corrêa: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)
Bárbara Corrêa da Silva
Nascida em 8/6/1997 no Rio de Janeiro – RJ com uma doença chamada artrogripose, o que afetou o movimento dos seus membros superiores e inferiores. Aos 9 anos de idade, começou a desenvolver a pintura com a boca e, hoje, é uma jovem determinada a realizar todos os seus sonhos. Vive em Saquarema – RJ.
👨🎨 Artista plástica da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Acrílica
Título da obra: “O que você vê da sua janela”
APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés. Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
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Um rio cortando a mata
São João Marcos
Mas o que é existir? Oca, submersa,
Esta é a cidade. O nosso úmido avesso
É o espelho final, suma sem preço
Que ajunta o que o fenômeno dispersa.
O esterco esfaz-se onde o tapete persa
Floria. Valsa o capinzal espesso
Nos salões. Onde era um florão de gesso
Há a flor sobre a qual nenhum texto versa.
Pois não somos daqui. As vacas mugem
Entre cruzes. A esguia garça grita
Onde o corpo de Deus era guardado.
Surde um sangue de cal e de ferrugem
Do chão. A noite esmaga-se infinita
Nas pedras, como um beijo de noivado.
30.9.1998
Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26 de abril de 1963). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999
Beijinho na testa
Testamento
Hoje, a espreita
de meu adversário,
eu,
que também fui menino
e persegui os passarinhos,
para pô-los no bolso da camisa, confiante
nas asas que abririam no meu sangue,
confesso
não só que pequei por palavras e obras,
por esperas e sombras,
que retorci o meu sonho,
ao aceitar ser enganosa
a plumagem dos cisnes
e as rosas das modinhas.
Confesso que errei, na ilusão
de fazer limpa a vida.
E só não a reduzi a ossos secos
sobre um jardim de areia,
porque aprendi, adulto,
nos livros de criança
que a morte nos persegue
vestida de beleza.
Fiquei por isso
com a mão no húmus, por alguns instantes,
raspei do tacho o resto de azinhavre
e dobrei a amargura
como se dobra um lenço,
como se fora limpo, ainda que com restos
de escarro e despedida.
Separei para mim
o que nesta partilha
entre a infância infinita
e o que são os meus dias
eram sombras de flores
e o charco florido.
…
(Não mais, não mais um só aceno
a quem saiu do agora para fugir do tempo,
e se afasta da páscoa, e se cala, cantando
para dentro o seu medo
do que seria a vida,
mas é só o avesso
da vida que não pede,
como se fosse humildade,
a quem lhe dá os naipes
a carta mais pequena.)
…
Mas ia alta a pandorga. E novamente
a azenha das garças se movia.
E eu,
que também fui velho
e sonhei com os passarinhos
e os quis bem aqui,
entre a pele e a camisa,
ou a bicar na janela o farelo e o alpiste,
fui tirando dos bolsos o pião, este rolo
de barbante encardido, esta ninfa exilada
entre oxuns, na ribeira,
estas bolas de gude, este pranto, este beijo,
a minha mãe sorrindo no balanço da rede,
a minha bem-amada escovando os cabelos,
e este carretel, e esta bala de menta,
e o aceno de adeus. Tudo isto
vos deixo.
Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 12 de maio de 1931 – Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2023). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999
Círculo imaginário (Recém emoldurado)
e se
e se / no meio da tarde /
um risco vermelho /
turvar / a intuição / e se /
no meio da tarde / um risco
vermelho / alongar /
assim as fontes /
/ desarticulando /
as coisas / só o bagaço
e se / no meio da tarde / um cisco /
ou quase isso /
dificultar / a vista / será q é /
será q é / q será q será /
o boneco de mao
tsé-tung arrebentando
os trilhos do entendimento
no primeiro dia da primavera
aquela vista chinesa
quem for ao jardim do méier
Rafael Zacca (Rio de Janeiro, 1987). In “Megamao”. Rio de Janeiro, Méier: Editora Caju, 2017. Este é um livro artesanal, com tiragem limitada de 200 exemplares, feito por uma editora independente da Joana Lavôr e do Lucas van Hombeeck. A edição traz uma costura chinesa e ilustrações feitas pela Joana Lavôr. Faz parte de uma trilogia, junto a mini marx (7Letras, 2016) e retro rosa (inédito). Trata-se também de uma homenagem a Mallarmé (Um lance de dados) e a Godard (A chinesa), com um poema épico ambientado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Os poemas trazem como títulos artigos publicados por Mao Tsé-Tung, tais como “sobre a contradição”, “uma só centelha pode iniciar um incêndio na pradaria” e “combater o liberalismo”. Traz um apêndice intitulado “mega mao para mega drive ou 1 lance de mao”