Rimbaud et l’air

[para Fabrício Marques, com quem condivido este poema, pelo toque & pelo mote]

Poeta sou,
mas
pelo avesso
chegado ao extremo:
não faço versos.

Verti ao olho
& al dente
uma estação no inferno.

Não vou nessa de Dante:
é sem acompanhante
que trafego

pelas profundas de mim mesmo.

Maria do Carmo Ferreira (Cataguases, Minas Gerais, 21 de dezembro de 1938). In “Cave Carmen”, 2024. Finalista ao Prêmio Jabuti 2025 com seu livro de poesia coletivo “Poesia reunida [1966-2009]” em parceria com Fabrício Marques e Silvana Guimarães (Organizadores), Editora Martelo, e a cerimônia de premiação está marcada para acontecer em 27 de outubro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Nota: Que coincidência de nome. Minha mãe chamava-se Maria do Carmo Ferreira Matosinho e era chamada carinhosamente de “Carmita”.

Vladimir Herzog: Ato religioso recriado 50 anos depois

O ato ecumênico que desafiou ditadura na morte de Herzog que ocorrerá hoje na Catedral da Sé resgata cerimônia que reuniu Paulo Evaristo Arns, Henry Sobel e Jaime Wright contra versão de suicídio. Será celebrada por Dom Odilo Pedro Scherer, auxiliado por um rabino e por uma presbitera. Cinco décadas depois, o novo ato ecumênico será dedicado não apenas à memória de Herzog, mas também a todas as famílias que perderam entes queridos durante a ditadura. A história mostra que há 50 anos, em 25 de outubro de 1975, foi assassinado o jornalista e cineasta Vladimir Herzog. Vítima da ditadura, tornou-se uma figura fundamental para a construção da nossa democracia. Nessa ocasião, oito mil pessoas se reuniram na Sé em memória do jornalista. Ele foi assassinado nas dependências do DOI–Codi paulista. O regime militar divulgou a versão de que o então diretor da TV Cultura teria se enforcado em uma cela, com o cinto do macacão que vestia. A reação da sociedade civil foi imediata. Três anos depois, coube ao jovem juiz Márcio José de Moraes julgar a ação movida pela família de Herzog contra o Estado brasileiro, ainda sob a vigência do AI–5.

O saudoso amigo Fernando Pacheco Jordão (1937 – 2017) conta tudo em seu livro “Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil” (Imagem abaixo). Muito amigo de Vlado e dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato, Fernando escreveu esse livro, que já está na sétima edição, revista e ampliada, e constitui documento fundamental para a História do Brasil.

25 de outubro – Ato Inter-religioso 50 anos por Vlado

A programação prevê acolhida a partir das 19h, com participação do Coro Luther King, seguida de manifestações interreligiosas, com a presença de Dom Odilo Pedro Scherer, da reverenda Anita Wright – filha de Jaime Wright, e do rabino Rav Uri Lam.

Apresentações culturais com grandes nomes da música brasileira acontecerão no interior da catedral. Além disso, a exibição de vídeos especialmente produzidos para a ocasião estão previstos, entre eles, a leitura de uma carta de Zora Herzog, mãe de Vlado, feita pela atriz Fernanda Montenegro.

Estarão presentes no evento ainda amigos e familiares de Vlado, parlamentares, ministros, figuras públicas e José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, representando as organizações realizadoras.

Serviço | Data: 25 de outubro de 2025 (sábado) | Horário: 19h | Local: Catedral da Sé – Praça da Sé, São Paulo – SP | Evento gratuito e aberto ao público.

Primeira palavra

Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios umedeça
a primeira palavra do teu corpo.

Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “Raiz de orvalho e outros poemas”

5 gerações de mulheres de minha família (Como aparece no álbum original)

Em pé: Minha avó Laura e minha mãe Carmita, sentadas: À esquerda, minha bisavó Adelaide, à direita, minha tataravó Ana Vianna e no centro minha irmã Edna. Essa fotografia foi batida em Rio Claro – SP em 1954, por ocasião do aniversário de 90 anos de Ana Vianna.

Divina comédia humana

Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um Sol no quintal
Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual
Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou viver satisfeito
Porque o amor é uma coisa mais profunda que um transa sensual
Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo e de novo dizendo sim à paixão, morando na filosofia
Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo e de novo dizendo sim à paixão, morando na filosofia
Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno
Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno
Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
Eu vos direi no entanto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não
Eu canto, ora direis
Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
Eu vos direi no entanto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não
Eu canto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não
Eu canto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não
Eu canto, hm hm

Antônio Carlos Belchior, mais conhecido como Belchior (Sobral, Ceará, 26 de outubro de 1946 – Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, 30 de abril de 2017). Canção de 1978 e que faz referências ao poema do parnasiano Olavo Bilac intitulado “Ora (direis) ouvir estrelas!” e ao clássico livro do poeta italiano Dante Alighieri, “A divina comédia, o inferno”

Ondas subterrâneas

ninguém, é estranho dizer
parece ter muito tempo
para aqui se sentar e, quiçá
contar epopeias cotidianas

por exemplo, o avô navegador
libertador de três, quatro palitos
imperador do milho e do leite
eu mesmo, seu bom herdeiro
um sócrates de conversas fáceis

ninguém tem muito tempo e… nada
a rotação de anotações submersas
o oceano tudo traga, depois regurgita
e você aí, sem mais e sem propósito
desaparece sem saber qual é a sua

Edney Cielici Dias (Piacatu, São Paulo, 14 de fevereiro de 1963). In “Cartas da alteridade”, São Paulo: Selo Demônio Negro, 2020

Como o contador de histórias é importante

Num reino muito distante, a corte estava cheia. Então resolveram expulsar uma pessoa.

O Vizir e o Grão Vizir escolheram o contador de histórias porque ele só contava histórias e não ajudava. O contador pediu para contar a última história. Os Vizires não aceitaram. Então ele foi perguntar para o rei, o rei aceitou, e então ele começou:

– Num reino distante, um rei e uma rainha tinham 3 filhas muito lindas.

Certo dia elas foram passear e se perderam. Depois de um tempo das filhas não chegarem eles (o rei e a rainha) colocaram cartazes escritos:

Quem achar as minhas filhas

ganhará o meu reino e casará

com uma delas.

E assim foi dito.

– Todo mundo começou a procurar, mas como ninguém achou o rei fez uma reunião da corte. A reunião queria:

– Escolher duas ou mais pessoas para ir procurar as filhas do rei.

– Logo no começo da reunião os Vizires foram capturados por vendedores de escravos que fizeram eles trabalharem.

– Do outro lado da cidade um contador de histórias falava com o rei:

– Eu posso ir procurar as princesas – Disse o contador.

– Você! – Disse o rei assustado.

– Sim, você tem outra opção.

– Não. – Disse o rei.

– Eu quero a mesma recompensa do que os Vizeres. – Disse o contador muito animado.

Sim disse o rei com tristeza (por que tinha quase certeza que o contador iria morrer).

– Então o contador foi procurá-las.

– Por sorte o contador não foi capturado pelos vendedores de escravos. Até viu os vendedores com o Vizir. O contador como tinha um dinheiro acumulado comprou os dois.

– Os três viajaram 4 dias e 4 noites e estavam exaustos. Até que viram uma casa com uma velhinha que parecia bondosa e pediram para ela:

– Por favor, deixe-nos dormir aqui? – Falaram os três muito cansados.

– Sim eu deixo, mas me conte um pouco de vocês. – Disse ela. O contador começou:

– Você conhece o Vizir e o Grão Vizir?

– Sim.

– Então são eles dois, e se você não sabe eles estão desaparecidos e eles estão procurando 3 princesas…

– Tá bom vocês são boas pessoas, podem entrar.

– Entraram e logo dormiram.

– Quando acordaram tomaram uma sopa e depois o contador contou uma história e a velhinha teve certeza que eles eram boas pessoas, então falou onde estavam as princesas:

– Eu acho que posso te ajudar – Disse s velhinha.

– Como? Disseram os três espantados.

– Um pouco longe daqui, tem um pântano aterrorizante com árvores com musgos compridos, com cipós altos e fortes, e lá dentro tem um rio fundo com um som muito forte dentro dele, se você conseguir passar, ainda tem cinco portas, e que em três delas tem alguma coisa de mal, mas atrás tem as princesas. Nas outras duas tem várias cobras venenosas.

– Isto é muito perigoso. – Disse a velhinha.

– O Vizir disse:

– Mas se voltarmos sem elas iríamos morrer, então é melhor arriscar.

– Eles se despediram e foram.

– Logo que chegaram à margem do rio o Grão Vizir disse:

– Eu, como sou mais forte, irei primeiro.

– Olha uma corda, vamos pegá-la. Grão Vizir quando você der dois puxões a gente te puxa, está bem? – Disse o Vizir.

– Então ele pulou e logo puxou a cordinha.

– Puxaram rápido ele para a cima. O Grão Vizir disse:

– Aquele barulho é ensurdecedor.

– Então foi a vez do Vizir: ele mergulhou e também deu dois puxões rapidinho.

– O Vizir concordou com o Grão Vizir.

Então foi a vez do contador de histórias.

Então ele pulou como os outros dois sentiu o mesmo barulho mais ignorou e conseguiu furar a barreira do som.

Então chegou onde estava as cinco portas e logo abriu uma porta e tinha um monstro com dentes afiados e então o contador o matou com um pedaço de vidro que atacou no monstro, que morreu.

Foi para a segunda porta. Abriu e tinha um centauro e o contador o matou com uma lança que estava no chão.

Na última porta tinha um dragão com sete cabeças, que o contador matou com uma machadinha que estava presa na parede.

Estavam atrás dos monstros mortos as princesas.

Primeiro subiram as duas princesas e depois o contador brigou com a última princesa para ver quem subia primeiro. Decidiram que era o contador, mas já era tarde os Vizires já tinham soltado a corda.

– Os Vizires falavam para as princesas que não era para contar que eles soltaram a corda e deixaram a princesa e o contador.

– Quando os Vizires não estavam percebendo, as duas princesas começaram a conversar bem baixo:

– Os Vizires estão falando sério, é melhor a gente não contar se não eles podem nos matar.

– Então eles voltaram. E fizeram uma grande festa, mas o rei percebeu que estava faltando uma de suas filhas e perguntou:

– Cadê a minha outra filha?

– Ela e o contador morreram. – Disse o Vizir.

– Então eu declaro um ano de luto e depois o Vizir irá assumir.

– Depois de dois meses do outro lado do reino, o contador e a princesa acharam uma arca mágica, abriram e apareceu um gênio colorido que tinha sido capturado pelos monstros do lado e agora estava livre e então tinham direito de um pedido para os dois.

O contador pensou, pensou e pensou, e falou:

– Escolho um barco todo de ouro com diamantes e rubis. E uma roupa para mim e para a princesa.

E assim foi feito.

O gênio fez o favor de colocar o barco no rio na frente do castelo.

– Eles se salvaram.

O rei nem percebeu que era o contador e continuou conversando até que a princesa falou:

– Pai, os Vizires me deixaram no lago!

– O rei mandou matar os Vizires. E o contador virou rei.

E nunca mais ninguém quis expulsar o contador de história.

Ulisses Matosinho Peres de Pontes (São Paulo, 1982 – 1998). In “Histórias dos alunos da 4ªB – 27 ótimas histórias”. Colégio Vera Cruz, sob a orientação de Rubette Santos – Educadora e editora, 1993