Dolor

Virá um e outro abril,
E envolto em flores — dirá :
Já a terra tem verdores,
E as aves cantam amores.
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Vem chegando as andorinhas.
O que é, diz, que as chama cá ?
Senão os mimos do sol,
Que lhes afagam a prole.
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Estremece e abrolha a arvore,
Que mil fructos te dará.
Sorrí toda a natureza,
A fera perde a braveza,
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Das estações a mais doce,
Que outra mais doce não ha,
Traz aos seres vida nova,
Tudo nos campos renova,
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
Folga o pobre de contente,
Que a festa vigor lhe dá.
É universal a festa.
No mundo nada te resta ?
Vamos, vem, desperta…
                                         Já
— Detem-te ; perdi a amante.
Sim — nada me resta já !
A festa, o mundo—que importa !
Para mim, depois que é morta,
Já Primaveras não ha.

A. X. Rodrigues Cordeiro, pseudônimo de António Xavier Rodrigues Cordeiro (Cortes, Portugal, 28 de dezembro de 1819 — Lisboa, Portugal, 11 de dezembro de 1896)

A voz

É tão suave ess’hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enteado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano.
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Era blasfema ideia,
Que triunfava enfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

“Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso,

Tipo da vida do homem,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pai, confia,
Do raio ao cintilar.

Ele o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!”

Oh, sim, torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.

Alexandre Herculano (Lisboa, Portugal, 28 de março de 1810 – Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém, Portugal, 13 de setembro de 1877)

Trecho de uma das Cartas portuguesas

Estou viva, infiel que sou! E faço tanto para
conservar a minha vida como para perdê-la! Ah!, morro de
vergonha! O meu desespero estará então apenas nas minhas
cartas? Se te amasse tanto como mil vezes te tenho dito, não teria
já morrido há muito tempo?
Enganei-te!, e és tu que te deves queixar de mim. Ai de
mim!, e porque o não fazes? Vi-te partir, não posso ter esperança
de te ver voltar, e, no entanto, respiro! Enganei-te, afinal, e peço
o teu perdão.

Sóror Mariana Alcoforado, pseudônimo de Mariana Mendes da Costa Alcoforado ou Mariana Vaz Alcoforado (Beja, Santa Maria da Feira, Portugal, 22 de abril de 1640 – Beja, Portugal, 28 de julho de 1723). In “Cartas portuguesas”, p. 47

Ontem pôs-se o sol

Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade,
para não tornar c’o tempo!

Tôdalas cousas, per tempo,
passam, como dia e noute;
ua só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido em quanto há sol,
nela enquanto não há dia.

Mal quero per um só dia
a todo outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sôbre a terra,
debaxo minha vontade.

Dentro na minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute:
no milhor pon-se-me o sol!

Primeiro não haverá sol
que eu descanse na vontade.
Pon-se-me ua escura noute
sôbre a lembrança de um dia…
Inda mal porque houve tempo
e porque tudo foi terra.

Haver de ser tudo terra
quanto há debaixo do sol
me descansa, porque o tempo
me vingará da vontade;
se não que antes dêste dia
há-de passar tanta noute!

Bernardim Ribeiro (Torrão, Portugal, 1482 — Lisboa, Portugal, 1552). In “Antologia poética”

Um cavaleiro havia

Rubrica:

Esta cantiga de cima foi feita a um Meestre d’ordim de cavalaria, porque havia sa barragãã e fazia seus [filhos] em ela ante que fosse Meestre; e depois havia ũa tenda em Lisboa, em que tragia mui grande haver a gaanho; e aquela sa barregãã, quando lhi algũus dinheiros vinham da terra da Ordem e que Meestre i nom era, enviava-os aaquela tenda, pera gaanharem com eles pera seus filhos; e depois tirarom ende os dinheiros da tenda e derom-nos em outras praças pera gaanharem com eles, e ficou a tenda desfeita; e nom leixou por en o Meestre depois a [barre]gãã.

Um cavaleiro havia
ũa tenda mui fremosa
que, cada que nela siia,
assaz lh’era saborosa;
e um dia, pela sesta,
u estava bem armada
de cada part’, espeçada
foi toda pela Meestra.

Na tenda nom ficou pano
nem cordas nem guarnimento
que toda nom foss’a dano,
pelo apoderamento
da Maestra, que, tirando
foi tanto pelo esteo,
que por esto, com’eu creo,
se foi toda [e]speçando.

A corda foi em pedaços
e o mais do al perdudo;
mais ficarom-lhi dous maços
[a] par do esteo merjudo,
e a Maestra metuda
na grand’estaca, jazendo;
e foi-s’a tenda perdendo
assi como é perduda.

Per míngua de bom meestre
pereceo tod’a tenda;
que nunca se dela preste
pera dom nem pera venda,
ca leixou, com mal recado,
a Meestra tirar tanto
da tenda, que, já enquanto
viva, seerá posfaçado.

Pedro de Barcelos, pseudônimo de Conde Pedro Afonso de Barcelos (1287 – Lalim, Portugal, entre 2 de fevereiro e 5 de julho, 1354). Cantiga de escárnio e maldizer