Mês: outubro 2025
Ondas subterrâneas
ninguém, é estranho dizer
parece ter muito tempo
para aqui se sentar e, quiçá
contar epopeias cotidianas
por exemplo, o avô navegador
libertador de três, quatro palitos
imperador do milho e do leite
eu mesmo, seu bom herdeiro
um sócrates de conversas fáceis
ninguém tem muito tempo e… nada
a rotação de anotações submersas
o oceano tudo traga, depois regurgita
e você aí, sem mais e sem propósito
desaparece sem saber qual é a sua
Edney Cielici Dias (Piacatu, São Paulo, 14 de fevereiro de 1963). In “Cartas da alteridade”, São Paulo: Selo Demônio Negro, 2020
Como o contador de histórias é importante

Num reino muito distante, a corte estava cheia. Então resolveram expulsar uma pessoa.
O Vizir e o Grão Vizir escolheram o contador de histórias porque ele só contava histórias e não ajudava. O contador pediu para contar a última história. Os Vizires não aceitaram. Então ele foi perguntar para o rei, o rei aceitou, e então ele começou:
– Num reino distante, um rei e uma rainha tinham 3 filhas muito lindas.
Certo dia elas foram passear e se perderam. Depois de um tempo das filhas não chegarem eles (o rei e a rainha) colocaram cartazes escritos:
Quem achar as minhas filhas
ganhará o meu reino e casará
com uma delas.

E assim foi dito.
– Todo mundo começou a procurar, mas como ninguém achou o rei fez uma reunião da corte. A reunião queria:
– Escolher duas ou mais pessoas para ir procurar as filhas do rei.
– Logo no começo da reunião os Vizires foram capturados por vendedores de escravos que fizeram eles trabalharem.
– Do outro lado da cidade um contador de histórias falava com o rei:
– Eu posso ir procurar as princesas – Disse o contador.
– Você! – Disse o rei assustado.
– Sim, você tem outra opção.
– Não. – Disse o rei.
– Eu quero a mesma recompensa do que os Vizeres. – Disse o contador muito animado.
Sim disse o rei com tristeza (por que tinha quase certeza que o contador iria morrer).
– Então o contador foi procurá-las.
– Por sorte o contador não foi capturado pelos vendedores de escravos. Até viu os vendedores com o Vizir. O contador como tinha um dinheiro acumulado comprou os dois.
– Os três viajaram 4 dias e 4 noites e estavam exaustos. Até que viram uma casa com uma velhinha que parecia bondosa e pediram para ela:
– Por favor, deixe-nos dormir aqui? – Falaram os três muito cansados.
– Sim eu deixo, mas me conte um pouco de vocês. – Disse ela. O contador começou:
– Você conhece o Vizir e o Grão Vizir?
– Sim.
– Então são eles dois, e se você não sabe eles estão desaparecidos e eles estão procurando 3 princesas…
– Tá bom vocês são boas pessoas, podem entrar.
– Entraram e logo dormiram.
– Quando acordaram tomaram uma sopa e depois o contador contou uma história e a velhinha teve certeza que eles eram boas pessoas, então falou onde estavam as princesas:
– Eu acho que posso te ajudar – Disse s velhinha.
– Como? Disseram os três espantados.
– Um pouco longe daqui, tem um pântano aterrorizante com árvores com musgos compridos, com cipós altos e fortes, e lá dentro tem um rio fundo com um som muito forte dentro dele, se você conseguir passar, ainda tem cinco portas, e que em três delas tem alguma coisa de mal, mas atrás tem as princesas. Nas outras duas tem várias cobras venenosas.
– Isto é muito perigoso. – Disse a velhinha.
– O Vizir disse:
– Mas se voltarmos sem elas iríamos morrer, então é melhor arriscar.
– Eles se despediram e foram.
– Logo que chegaram à margem do rio o Grão Vizir disse:
– Eu, como sou mais forte, irei primeiro.
– Olha uma corda, vamos pegá-la. Grão Vizir quando você der dois puxões a gente te puxa, está bem? – Disse o Vizir.
– Então ele pulou e logo puxou a cordinha.
– Puxaram rápido ele para a cima. O Grão Vizir disse:
– Aquele barulho é ensurdecedor.
– Então foi a vez do Vizir: ele mergulhou e também deu dois puxões rapidinho.
– O Vizir concordou com o Grão Vizir.
Então foi a vez do contador de histórias.
Então ele pulou como os outros dois sentiu o mesmo barulho mais ignorou e conseguiu furar a barreira do som.
Então chegou onde estava as cinco portas e logo abriu uma porta e tinha um monstro com dentes afiados e então o contador o matou com um pedaço de vidro que atacou no monstro, que morreu.
Foi para a segunda porta. Abriu e tinha um centauro e o contador o matou com uma lança que estava no chão.
Na última porta tinha um dragão com sete cabeças, que o contador matou com uma machadinha que estava presa na parede.
Estavam atrás dos monstros mortos as princesas.
Primeiro subiram as duas princesas e depois o contador brigou com a última princesa para ver quem subia primeiro. Decidiram que era o contador, mas já era tarde os Vizires já tinham soltado a corda.
– Os Vizires falavam para as princesas que não era para contar que eles soltaram a corda e deixaram a princesa e o contador.
– Quando os Vizires não estavam percebendo, as duas princesas começaram a conversar bem baixo:
– Os Vizires estão falando sério, é melhor a gente não contar se não eles podem nos matar.
– Então eles voltaram. E fizeram uma grande festa, mas o rei percebeu que estava faltando uma de suas filhas e perguntou:
– Cadê a minha outra filha?
– Ela e o contador morreram. – Disse o Vizir.
– Então eu declaro um ano de luto e depois o Vizir irá assumir.
– Depois de dois meses do outro lado do reino, o contador e a princesa acharam uma arca mágica, abriram e apareceu um gênio colorido que tinha sido capturado pelos monstros do lado e agora estava livre e então tinham direito de um pedido para os dois.
O contador pensou, pensou e pensou, e falou:
– Escolho um barco todo de ouro com diamantes e rubis. E uma roupa para mim e para a princesa.
E assim foi feito.
O gênio fez o favor de colocar o barco no rio na frente do castelo.
– Eles se salvaram.
O rei nem percebeu que era o contador e continuou conversando até que a princesa falou:
– Pai, os Vizires me deixaram no lago!
– O rei mandou matar os Vizires. E o contador virou rei.
E nunca mais ninguém quis expulsar o contador de história.
Ulisses Matosinho Peres de Pontes (São Paulo, 1982 – 1998). In “Histórias dos alunos da 4ªB – 27 ótimas histórias”. Colégio Vera Cruz, sob a orientação de Rubette Santos – Educadora e editora, 1993
Marinheiro 2
Prece
Um marujo o abismo do mar guardou consigo.
Sem de nada saber, a mãe coloca um círio
aceso diante da Virgem, um longo círio,
para que volte logo, a salvo dos perigos.
No bramido dos ventos põe o seu ouvido;
mas, enquanto ela reza e faz o seu pedido,
sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,
que o filho que ela espera nunca há de voltar.
Konstantinos Kaváfis (Alexandria, Egito, 29 de abril de 1863 – Alexandria, Egito, 29 de abril de 1933). In “Poesia de todos os tempos – Poemas”, 3ª edição, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990. Tradução de José Paulo Paes
Trabalhando com a enxada
O carro da miséria (Trecho)
A Carlos Lacerda
I
O quê que vêm fazer pelos meus olhos tantos barcos
Lenços rompendo adeuses presentinhos
Charangas na terra-roxa das estações um grito
Um grito não um gruto
Que me faz esquecer a miséria do mundo pão pão…
O quê que vem fazer na minha boca um beijo
A mulher da Bolívia agarrando
Um penacho de viúvas restritas
Restritas não restrutas
Que o papagaio repassa e põe na vida…
Ah… caminhos caminhos caminhos errados de séculos…
Me sinto o Pai Tietê. Dos meus sovacos
Saem fantasmas bonitões pelos caminhos
Penetrando o esplendor falso da América.
Dei-vos minas de ouro vós me dais mineiros!
Glória a Cícero nas vendinhas alterosas
Com a penugem dos pensamentos sutis
Feito ninho de guaxe
O passado atrapalha os meus caminhos
Não sou daqui venho de outros destinos
Não sou mais eu nunca fui eu decerto
Aos pedaços me vim – eu caio! – aos pedaços disperso
Projetado em vitrais nos joelhos nas caiçaras
Nos Pireneus em pororoca prodigiosa
Rompe a consciência nítida: EU TUDOAMO.
Ora vengam los zabumbas
Tudoamarei! Morena eu te tudoamo!
Destino pulha alma que bem cantaste
Maxixa agora samba o coco
E te enlambuza na miséria nacionar.
Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945)
Poke
Cachorro vira-lata
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
E por falar em cachorro
Sei que existe lá no morro
Um exemplar
Que muito embora não sambe
Os pés dos malandros lambe
Quando eles vão sambar
E quando o samba já está findo
Vira-lata está latindo a soluçar
Saudoso da batucada
Fica até de madrugada
Cheirando o pó do lugar
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
E até mesmo entre os caninos
Diferentes os destinos
Costumam ser
Uns têm jantar e almoço
E outros nem sequer um osso
De lambuja pra roer
E quando passa a carrocinha
A gente logo adivinha a conclusão
O vira-lata, coitado
Que não foi matriculado
Desta vez virou sabão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Eu gosto muito de cachorro vagabundo
Que anda sozinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão
Alberto Ribeiro (Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1902 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1971). Música magistralmente interpretada por Carmen Miranda (Marco de Canaveses, Porto, Portugal, 9 de fevereiro de 1909 – Beverly Hills, Califórnia, Estados Unidos, 5 de agosto de 1955)
Notas: Alberto Ribeiro tornou-se nome de rua no bairro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E Carmen Miranda, apelidada de “Brazilian Bombshell”, participou no Brasil de cinco filmes musicais carnavalescos como Alô, Alô, Brasil! (1935) e Alô, Alô, Carnaval (1936) e nos Estados Unidos fez um total de catorze filmes entre as décadas de 1940 e 1950, nove deles somente na 20th Century Fox.