Hoje, a espreita
de meu adversário,
eu,
que também fui menino
e persegui os passarinhos,
para pô-los no bolso da camisa, confiante
nas asas que abririam no meu sangue,
confesso
não só que pequei por palavras e obras,
por esperas e sombras,
que retorci o meu sonho,
ao aceitar ser enganosa
a plumagem dos cisnes
e as rosas das modinhas.
Confesso que errei, na ilusão
de fazer limpa a vida.
E só não a reduzi a ossos secos
sobre um jardim de areia,
porque aprendi, adulto,
nos livros de criança
que a morte nos persegue
vestida de beleza.
Fiquei por isso
com a mão no húmus, por alguns instantes,
raspei do tacho o resto de azinhavre
e dobrei a amargura
como se dobra um lenço,
como se fora limpo, ainda que com restos
de escarro e despedida.
Separei para mim
o que nesta partilha
entre a infância infinita
e o que são os meus dias
eram sombras de flores
e o charco florido.
…
(Não mais, não mais um só aceno
a quem saiu do agora para fugir do tempo,
e se afasta da páscoa, e se cala, cantando
para dentro o seu medo
do que seria a vida,
mas é só o avesso
da vida que não pede,
como se fosse humildade,
a quem lhe dá os naipes
a carta mais pequena.)
…
Mas ia alta a pandorga. E novamente
a azenha das garças se movia.
E eu,
que também fui velho
e sonhei com os passarinhos
e os quis bem aqui,
entre a pele e a camisa,
ou a bicar na janela o farelo e o alpiste,
fui tirando dos bolsos o pião, este rolo
de barbante encardido, esta ninfa exilada
entre oxuns, na ribeira,
estas bolas de gude, este pranto, este beijo,
a minha mãe sorrindo no balanço da rede,
a minha bem-amada escovando os cabelos,
e este carretel, e esta bala de menta,
e o aceno de adeus. Tudo isto
vos deixo.
Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 12 de maio de 1931 – Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2023). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999