O bolinho de arroz flutuante

Meu corpo é branco, meu destino é suavemente redondo,
Sete submersões e três flutuações, por entre montanhas e rios.
Mole ou firme, pouco importa, pois está nas mãos de quem me molda,
Mas eu ainda mantenho o meu coração de um vermelho puro.

Ho Xuân Hương (Distrito de Quỳnh Lưu, na província de Nghệ An, Vietnã, 10 de julho de 1772 – Antiga cidade de Thăng Long, hoje Hanói, Vietnã, 3 de fevereiro de 1822) foi uma das maiores poetas clássicas desse pais, conhecida como a “Rainha da poesia Nôm”, ela usava metáforas engenhosas e duplo sentido para desafiar o patriarcado, a poligamia e o confucionismo em uma sociedade dominada pelos homens. Ela é uma figura histórica do século XVIII, reverenciada por seus versos ousados e feministas e a sua obra mais famosa é justamente “Bánh trôi nước” (O bolinho de arroz flutuante)

Ciclo mostra Buñuel em seus diversos períodos

Mostra de nove filmes do cineasta espanhol Luis Bunuel

A justificativa é meio forçada (afinal já se passam mais de quatro meses da efeméride lembrada, o nonagésimo aniversário de nascimento do homenageado, completado em 22 de fevereiro último), mas toda hora é hora para uma boa retrospectiva dos inesgotáveis filmes de Buñuel (1900-1983).

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O diretor espanhol Luis Buñuel (1900-1983), que terá nove de seus filmes exibidos pela Cinemateca

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Já “A bela da tarde” (Belle de jour, 1966) e “Tristana” (1970) partilham muito mais do que Catherine Deneuve e as origens literárias (a partir de Joseph Kessel e de Benito Perez Gáldo, respectivamente). A sofisticada Sevérine e a provincial Tristana sabem quão longe do casamento habitam seus obscuros objetos do desejo e quão embolorada é a vida burguesa típica. Buñuel foi dos poucos revolucionários do cinema que terminou como começou.

Cena de “‘A Idade de Ouro”‘ (L’Age d’Or, 1930), segundo filme realizado pelo cineasta Luis Buñuel

Blues da piedade

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é Lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só pras pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê um pouco de coragem

Ah, ah, um pouco de coragem
Ah, ah, lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Cazuza, nome artístico de Agenor de Miranda Araújo Neto (Rio de Janeiro, 4 de abril de 1958 – Rio de Janeiro, 7 de julho de 1990) e Roberto Frejat (Rio de Janeiro, 21 de maio de 1962). Esse “blues” foi uma letra escrita no hospital e a inspiração para o refrão veio de uma música mexicana chamada “Oración Caribe”. Nos tempos do Barão Vermelho (1982 – 2005), essa inspirada dupla criou esse manifesto contra a hipocrisia e a indiferença. A música inverte a lógica da compaixão, pedindo piedade não para os marginalizados, mas para a “gente careta e covarde”, clamando que lhes sejam dadas grandeza e coragem para enfrentar a realidade. Lançada no álbum “Ideologia” (1988), a canção foi escrita quando o artista já enfrentava o diagnóstico da AIDS. A observação do sofrimento e a lucidez sobre o preconceito influenciaram a composição. O termo “blues” no título reforça o tom melancólico e de lamento da canção. Em vez de se vitimizar, Cazuza utiliza o blues como um desabafo visceral, dirigindo suas palavras tanto aos “miseráveis” que vagam pelo mundo quanto às pessoas de “alma bem pequena”, que se apegam a superficialidades

Caleidoscópio

Um negro,
um branco
um forte abraço mútuo,
o mesmo alvo sorriso.
O pensamento: bandeiras verdes e brancas.

Um amarelo,
um negro,
destinos que se ligam,
o mesmo rubro sangue.
O pensamento: bandeiras verdes e brancas.

Um branco,
um amarelo,
um aperto de mãos,
a mesma dor humana.
O pensamento: bandeiras verdes e brancas.

Um negro,
um amarelo,
um branco,
o mesmo homem
em cores caleidoscópicas:
o mesmo alvo sorriso,
o mesmo rubro sangue
a mesma dor humana:
O mesmo pensamento: bandeiras verdes e brancas!

1957

Vasco Cabral (Farim, Guiné Portuguesa, 23 de agosto de 1926 – Bissau, Guiné-Bissau, 24 de agosto de 2005) foi um escritor e político de Guiné-Bissau. Sobre ele escreve Luís Carvalho: Estudou em Portugal, formando-se em Ciências Econômicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa. Foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. Foi preso político em 1953, no Aljube e em Caxias, por sua atuação contra o regime de António de Oliveira Salazar. Tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) e foi comandante político da guerrilha de libertação nacional. Com a independência da Guiné Bissau, desempenhou funções no Governo (Foi ministro da Economia e das Finanças, ministro da Justiça e vice-presidente da Guiné-Bissau). In: “Antologia poética da Guiné-Bissau”, 1990

Mabe: Além de pintar e imprimir os Poemas da lua e da manhã, escreveu textos poéticos autobiográficos

Nunca fui aluno de nenhum mestre, tão pouco pertenci a qualquer escola. Possuo um estilo de pintura que eu mesmo desenvolvi, à custa de muito esforço e perseverança, o qual é facilmente identificável. A título de brincadeira, eu o denominei de “mabismo”. Mas esse estilo também foi sofrendo modificações com o decorrer do tempo. As pessoas dizem que ele representa a fusão do oriente com o ocidente, sendo a expressão da poesia lírica, mas eu creio que a minha pintura representa a mim mesmo. Segundo as palavras de um pintor amigo, Kazuo Wakabayashi, eu sou um exemplo raro, entre os japoneses de minha geração, que não teve a experiência da guerra. Diz ele: os japoneses que estavam no Japão, durante a segunda guerra mundial, tornaram-se retraídos, devido a derrota. Mas, o Mabe, que estava no exterior, manteve a sua alegria natural, a qual consegue expressar na sua pintura.

16 de setembro de 1994

Manabu Mabe (Kumamoto, Japão, 14 de setembro de 1924 — São Paulo, 22 de setembro de 1997). In “Chove no cafezal” ou “Nihon keizai shimbun”, São Paulo, 1994. p. 86. Embora ele seja mais conhecido por suas telas e gravuras abstratas, ele deixou alguns relatos e os mais famosos expressam sua relação lírica com a arte e podem ser lidos nos sites da Galeria de Arte Lívia Doblas e a da Smart Gallery