Abdicação

Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho… Eu sou um Rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei,
E meu ceptro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas dum tinir tão fútil –
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a Realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Nota: Poema transcrito por Pessoa em carta escrita à Mário Beirão, intitulada “Crise psíquica”, em Lisboa, Rua Passos Manuel , 24, 3º. E, em 1 de fevereiro de 1913.

Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obras em prosa – Volume único”. Biblioteca Luso-Brasileira – Série Portuguesa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986

Escrito delirante

Fodam-se
Poeta
Poetas, filósofos,
office boys e demais bobos
Um viva para as prostitutas da Luz
A bênção aos macumbeiros e pais de santo
Quero neste meu grito irresoluto saudar as figu-
ras da rua e da boemia
que agridem o céu da cidade

A Luz:
A Luz é mais que um grito
É um desespero nessa cidade de
caráter latino
Suas torres, seu relógio pontual
O dia a dia sem desespero
Calmo? Mais barulhento
Dessa cidade que é São Paulo, velha de guerra
Gosto de Oswald de Andrade e queria que ele me comesse…
Me empanturre de Antropofagismo (*)
O Brasil é bem isso: Terra de gente cretina
Onde falta poesia e poetas
Temos excesso de concreto nas ruas
e na cabeça das pessoas
Mário de Andrade também foi grande
Macunaíma nos faz vibrar com seu humor
bem brasileiro
E assim vai-se esse discurso de bêbado em
fim de noite.

(*) Refiro-me ao Movimento Antropofágico (1928), liderado por Oswald de Andrade, como metáfora para “devorar” culturas estrangeiras, reelaborá-las e criar uma arte nacional original.

De poesia e poetas

Carta a Gaspar Simões
Apartado 147
Lisboa, 28 de junho de 1930

Meu querido camarada:
Como de meu costume, escrevo-lhe a máquina, mas assim lê-se. Teria gostado de ter falado mais consigo e com o José Régio quando tive a alegria de os ver atualmente; mas a pressa não deixou à ocasião mais que o privilégio da oportunidade. Digo o que lhes disse. Vou preparar, pormenorizadamente, o texto do primeiro volume — o dos poemas — das obras do Mário de Sá-Carneiro. Não foi só o caso, que lhes contei, de eu não ter encontrado durante algum tempo o livro manuscrito dos Indícios de Ouro; desejo confrontar esse texto com os vários textos parciais, que possuo em cartas do Sá-Carneiro, que me enviava de Paris os poemas à medida que os escrevia. Já fiz a busca das cartas, e já tenho quase todos os duplicados dos últimos poemas (só dos últimos é que se trata neste escrúpulo). Conto ter tudo pronto para, durante julho, passar a máquina o volume de poemas em seu conjunto limpo. Espero levá-los a crer na existência extra-religiosa do milagre, pelo cumprimento desta minha promessa.
Há, também, o caso da minha colaboração para Presença. Repito que lhes disse: o fato de eu não enviar colaboração constante não significa nada que alimente o raciocínio. São coisas entre mim e mim. Nunca vocês julguem, ou entrejulguem, que tenho qualquer razão para não enviar colaboração. É tão fácil supor atitudes e quem não é súdito dessas desconformidades que tenho sempre receio do que se pense, embora nunca tenha receio do que se pensa.
Quando se publica o 27 da Presença? Desejo enviar um triunfais do Álvaro de Campos e mais uma coisa de meu. Pergunto isto porque não sei se vocês suspendem de agora até Outubro, ou se prosseguem, quand même, nos meses débeis. Acabo de receber — acabo de receber literalmente — o número 26 de Presença, e por ele, e por coisas anexas mentalmente a ele, me ocorre pedir-lhe algumas informações que a minha curiosidade, me solicita.
(1) O que foi o “manifesto a rir” que vocês publicaram a desrespeito da homenagem ao Antônio Correia de Oliveira? Gostava que vocês me mandassem esses escritos, por episódicos que os considere, sempre que os produzam e publiquem. Gostava que vocês se lembrassem sempre mais ativamente de mim do que eu me lembro ativamente das outras pessoas, embora esteja abundantemente elas em alma. Paguem-me o mal aparente com o bem inteiro!
(2) Tinha muito empenho em conhecer o texto da conferência que V. fez no Salão dos Independentes. Supus, não sei com que fundamento instintivo, que ela viesse reproduzida neste número (o 26) de Presença. Vejo que, com sempre que tenho palpites, me enganei. V. tenciona publicar em breve essa conferência?
(3) O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Livraria Portugália? Tenho a noção de que a explicação deve estar no verso do manifesto; mas o verso está em branco.
A este último respeito, uma coisa me ocorre, mas não sei se me ocorre certa, porque não sei se haverá qualquer relação. Recebi, como você me disse que receberia, o livro Rampa do Adolfo Rocha. Passados uns dias — mais do que deveria ser — escrevi-lhe uma carta agradecendo o livro e dando, resumidamente, uma opinião. Como escrevi à pressa, para não demorar mais a resposta e o agradecimento, transferi a redação para o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu. O resumo da minha opinião, de cuja expressão o citado engenheiro se encarregou, é de que o livro é interessante (é, realmente, muito interessante) como sensibilidade, mas imperfeito e incompleto como uso dela; e é o uso da sensibilidade, e não a própria sensibilidade, que vale em arte. Não deixei de ser elogioso, até onde pude sê-lo; para além de onde podia sê-lo, confesso que o não fui.
Recebi, pouco depois, uma carta do Adolfo Rocha, que me deixou, durante um quarto de hora, perplexo sobre se deveria ou não responder. A carta é de alguém que se ofendeu na quarta dimensão. Não é bem áspera, nem é propriamente insolente, mas (a) intima-me a explicar a minha carta anterior, (b) diz que a minha opinião é a mais desinteressante que ele recebeu a respeito do livro dele, (c) explica, em diversos ângulos obtusos, que os intelectuais são ridículos e que a era dos Mestres já passou.
A carta não tinha, realmente, resposta necessária; achei pois melhor não responder. Que diabo responderia? Em primeiro lugar,é indecente aceitar intimações em matéria extrajudicial. Em segundo lugar, eu não pretendera entrar num concurso de opiniões interessantes, Engenheiro Álvaro de Campos se servira em meu nome; e isso me colocaria numa situação de prosa ainda mais intelectual e ainda mais de Mestre (com maiúscula) do que a anterior. Desisti. Paretere et abstine, recomendava os Estóicos.
Abraço-o afetuosamente o
camarada admirador e grato,
Fernando Pessoa
P. S. — Que quer dizer o nome “Vasco” de uma revista que se publica em Marselha?

Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obras em prosa – Volume único”. Biblioteca Luso-Brasileira – Série Portuguesa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986

Coelho cai / Rabbit at rest – 1990 (Trecho inicial, orelha e contracapa)

Coelho paira acima daquele antigo mundo de que se lembra bem, rico, em paz.
Coelho cresce

Para o indolente, comida é veneno, não alimento.
Life and times of Frederick Douglass

1
FL

No meio da multidão bronzeada e irrequieta que, passado o N Natal, lota o Southwest Florida Regional Airport, Coelho Angstron tem de repente a sensação estranha de que quem vai se encontrar com ele, quem está voando, invisível, prestes a pousar, não é seu filho Nelson, com sua nora Pru e os dois filhos do casal, e sim algo mais sinistro, algo que é só seu: sua morte, que tem vagamente a forma de um avião. A sensação lhe dá um frio na espinha, que nada tem a ver com o ar-condicionado. É bem verdade, porém, que há trinta anos ele se sente constrangido sempre que tem de enfrentar Nelson.
O aeroporto é relativamente novo. Para chegar lá, sai-se da Interstate 75 na saída 21, percorrem-se cinco quilômetros numa auto-estrada de pista dupla, que apesar das palmeiras magras enfileiradas, do capim-de-burro impecavelmente aparado e excessivamente verde às suas margens, parece não levar a lugar nenhum.Não há outdoors, nem lojinhas e restaurantes de beira-estrada, nem nenhuma dessas casas de um andar, com telhados brancos para refletir o sol, que são construídas aos montes aqui. A pessoa tem a impressão de que se enganou. No espelho retrovisor, um Camaro vermelho, conversível, ansioso, está colado atrás do carro de Coelho.
“Harry, não precisa correr. A gente está até adiantada.” Janice, a mulher de Coelho, disse isto a ele quando estavam indo para lá. O que o irritou foi o tom condescendente, cauteloso, que ela adotou de uns tempos para cá, como se ele estivesse ficando senil antes do tempo. Coelho olhou para Janice e a viu ajeitar uma mecha rebelde de cabelo semigrisalho que insistia em cair em seu rostinho duro e moreno como uma noz. “Meu bem, tem alguém colado em mim”, Coelho explicou, e passou para a pista da direita, deixando o ponteiro do velocímetro cair para abaixo de cem. O Camaro conversível passou na disparada, dirigido por uma moça negra, de pele cor de chocolate, com um chapéu de aeromoça de feltro cinzento, o queixo e os lábios embicados para a frente, sem sequer olhar para o lado. Isso também o irritou. Visto de trás, o Camaro parece ter uma boca, dois beiços gordos de metal, entreabertos numa careta zombeteira. Assim, foi talvez neste momento que Harry começou a ficar cismado.
O prédio do aeroporto finalmente aparece, comprido, branco, achatado, como uma versão ampliada das clínicas – clínicas de odontologia, de quiroprática, de cardiologia, clínicas para tratamento de artrite, clínicas legais e médico-legais — que ladeiam as avenidas ensolaradas desse estado geriátrico. O estacionamento fica a poucos metros da porta automática de vidro fumê: a Flórida paparica as pessoas.

Orelha:

Em Coelho cai, segundo a maioria dos críticos a obra-prima de John Updike, chega ao fim a saga de Harry Angstrom, o Coelho, um americano médio cuja complicada vida serviu de fio condutor para o autor traçar, entre irônico e amargo, um amplo e minucioso perfil psicológico e social da cultura americana de classe média nas últimas três décadas.
Em 1989, Coelho está com 55 anos, semi-aposentado, dividindo o ano entre seu apartamento na Flórida e a casa no subúrbio rico de Brewer, modernizada graças à instalação no local de indústrias de alta tecnologia. Mas Coelho ainda não encontrou a paz: não o incomoda apenas a inatividade prematura – viu-se afastado contra sua vontade do comando da concessionária Toyota, agora dirigida por seu filho Nelson —, mas também pelo excesso de peso ocasionado pelos doces e pelas comidas gordurosas que consome compulsivamente. E seu coração já começa a sinalizar, com pontadas e dores no peito, o infarto agudo do miocárdio.
O progressivo desligamento e desinteresse de Coelho em relação à vida tem sua contrapartida em Janice que, rejuvenescida pelo sol da Flórida, lança-se em vários projetos novos e começa uma nova carreira, na Pensilvânia, como corretora de imóveis. Cabe a ela também enfrentar de cabeça fria a ruína do negócio familiar.
Poucos personagens da ficção foram tão exaustivamente examinados e tão nitidamente descritos e imaginados quanto Harry Angstrom e seu círculo social nesta série de quatro romances iniciada com Coelho corre (1960) e encerrada com Coelho cai. Das urgências do corpo às perplexidades e anseios do espírito, das proezas atléticas e prazeres sexuais ao declínio e colapso físicos, das dificuldades financeiras aos confortos da afluência, da vida familiar e dos relacionamentos amorosos às asperezas da solidão — aqui está toda a longa e complexa trajetória das vidas americanas — e não apenas delas — na segunda metade do século XX.

Contracapa:

Considerada pela crítica americana como o projeto literário mais ambicioso das últimas décadas, a tetralogia de John Updike sobre a vida de Harry Angstrom, o Coelho, termina com este Coelho cai, lançado nos Estados Unidos em 1990 e ganhador do mais importante prêmio literário americano, o Pulitzer.
Semi-aposentado aos 55 anos, devorando compulsivamente todo tipo de comida inadequada para seu coração e matando o tempo na ensolarada Flórida, Coelho continua a correr… Desta vez não mais em busca da graça e da glória de seus dias de astro juvenil de basquete, mas de seu próprio fim.

John Updike (Shillington, Massachusetts, Estados Unidos, 18 de março de 1932 — Beverly, Massachusetts, Estados Unidos, 27 de janeiro de 2009) foi um romancista, poeta, contista, crítico de arte e crítico literário estadunidense. In “Coelho cai”, tradução de Paulo Henrique Brito, São Paulo: Companhia das Letras, 1992