De coração partido

O que me espanta
não é a morte
mas a vida, diga-se
a sub-vida da sobrevida.
O que me espanta
é a inércia do corpo
seu cego apetite
sob a alma inapetente.
O que me espanta
é o fôlego da fera
hibernando na crise
gelo sem primavera.
O que me espanta
e a resistência masoquista
que entre a ferida e o nada
de nada se acorvada
e resigna-se à ferida?

Astrid Cabral (Manaus, Amazonas, 25 de setembro de 1936). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Chartres

Dos cento e setenta vitrais da catedral
restam cento e cinquenta e dois. Mais
de dois mil metros quadrados de cor e luz,
que vestem, ao crepúsculo, as almas que ali vão orar,
banhando-as no orvalho de pinturas sem carne.
Ateus (próximos da velhice), para quem
as grandes perguntas ficaram sem resposta,
sentem vacilar as pernas. Sim, a vida, segundo eles,
deve ser aceita e vivida em sua imediatez.
Os ignorantes não compreendem por que tantos operários
(de tão variadas nacionalidades) esqueceram
os próprios nomes. Um único registrou o seu,
em Rouen. Teria sido Clemente
de todos o mais infeliz?

Armindo Trevisan (Santa Maria, Rio Grande do Sul, 6 de setembro de 1933). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Cena com a família de Edna Vieira de Carvalho

Sobre esse expressivo quadro, comenta a amiga Edna Vieira de Carvalho: “Essa obra foi feita e me presenteada pelo meu saudoso irmão, Luiz Antônio Vieira de Carvalho, em 5/4/1982. Nosso pai, Pedro Vieira de Carvalho, falecera em 26/1/1982. Só consegui chegar ao Brasil em 28/1, ainda a tempo de me despedir de meu pai, no crematório da Vila Alpina. Essa tela é muito especial porque o Luiz não a copiou de uma foto, mas se baseou em suas lembranças do cotidiano da família quando nos visitava, pois morava em São Carlos: Papai, em sua cadeira de rodas (diabético, perdera a perna por ter ajudado no restauro do vagão quando se acidentou com soda cáustica infeccionando os dedos), seus filhos, a Alecsandra – com seu cachorrinho, o Luís Alberto – com sua bola de futebol, a Adair – ajudante da casa, ao fundo, na cozinha, abrindo ou fechando a geladeira)…. Você, Eduardo, adolescente, conheceu bem o papai, lembro que conversavam muito…”

Bárbara Corrêa: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

Bárbara Corrêa da Silva

Nascida em 8/6/1997 no Rio de Janeiro – RJ com uma doença chamada artrogripose, o que afetou o movimento dos seus membros superiores e inferiores. Aos 9 anos de idade, começou a desenvolver a pintura com a boca e, hoje, é uma jovem determinada a realizar todos os seus sonhos. Vive em Saquarema – RJ.

👨🎨 Artista plástica da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Acrílica
Título da obra: “O que você vê da sua janela”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés. Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
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São João Marcos

Mas o que é existir? Oca, submersa,
Esta é a cidade. O nosso úmido avesso
É o espelho final, suma sem preço
Que ajunta o que o fenômeno dispersa.

O esterco esfaz-se onde o tapete persa
Floria. Valsa o capinzal espesso
Nos salões. Onde era um florão de gesso
Há a flor sobre a qual nenhum texto versa.

Pois não somos daqui. As vacas mugem
Entre cruzes. A esguia garça grita
Onde o corpo de Deus era guardado.

Surde um sangue de cal e de ferrugem
Do chão. A noite esmaga-se infinita
Nas pedras, como um beijo de noivado.

30.9.1998

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26 de abril de 1963). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Testamento

Hoje, a espreita
de meu adversário,

eu,
que também fui menino
e persegui os passarinhos,

para pô-los no bolso da camisa, confiante
nas asas que abririam no meu sangue,

confesso
não só que pequei por palavras e obras,
por esperas e sombras,

que retorci o meu sonho,
ao aceitar ser enganosa

a plumagem dos cisnes
e as rosas das modinhas.

Confesso que errei, na ilusão
de fazer limpa a vida.

E só não a reduzi a ossos secos
sobre um jardim de areia,

porque aprendi, adulto,
nos livros de criança

que a morte nos persegue
vestida de beleza.

Fiquei por isso
com a mão no húmus, por alguns instantes,

raspei do tacho o resto de azinhavre
e dobrei a amargura
como se dobra um lenço,

como se fora limpo, ainda que com restos
de escarro e despedida.

Separei para mim
o que nesta partilha

entre a infância infinita
e o que são os meus dias

eram sombras de flores
e o charco florido.

…

(Não mais, não mais um só aceno
a quem saiu do agora para fugir do tempo,

e se afasta da páscoa, e se cala, cantando
para dentro o seu medo

do que seria a vida,
mas é só o avesso

da vida que não pede,
como se fosse humildade,

a quem lhe dá os naipes
a carta mais pequena.)

…

Mas ia alta a pandorga. E novamente
a azenha das garças se movia.

E eu,
que também fui velho
e sonhei com os passarinhos

e os quis bem aqui,
entre a pele e a camisa,

ou a bicar na janela o farelo e o alpiste,
fui tirando dos bolsos o pião, este rolo

de barbante encardido, esta ninfa exilada
entre oxuns, na ribeira,

estas bolas de gude, este pranto, este beijo,
a minha mãe sorrindo no balanço da rede,
a minha bem-amada escovando os cabelos,
e este carretel, e esta bala de menta,
e o aceno de adeus. Tudo isto
vos deixo.

Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 12 de maio de 1931 – Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2023). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999